Telespectadores defendem interferência do governo na programação das TVs, revela pesquisa
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segunda-feira, 08 de março de 1999
Por Júlio Gama 
São Paulo, 09 (AE) - A iniciativa do secretário Nacional dos Direitos Humanos, José Gregori, de promover e liderar a discussão sobre a qualidade da programação das emissoras de TV brasileiras parece estar agradando aos telespectadores. O indicador é o resultado de uma pesquisa encomendada pelo Grupo TVer à empresa CPM Market Research. Constatou-se, entre outros pontos, que 71% das 842 pessoas ouvidas das classes A, B, C e D, entre 14 e 39 anos, nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre, acham que o governo deve interferir de alguma forma na programação da TV.
"Isso mostra que estamos legitimados pela maioria da população", analisa o secretário. Com a maioria dos entrevistados aprovando a interferência do governo na manutenção da qualidade da programação das TVs, foi indagado o que o executivo poderia fazer, na prática, para inibir o baixo nível dos programas. O Grupo TVer foi criado há pouco mais de dois anos pela sexóloga e ex-deputada Martha Suplicy. O grupo reúne 23 representantes da sociedade civil, entre psicólogos, advogados, psicanalistas e jornalistas, que discutem formas de contribuir para a melhoria da qualidade da programação da TV brasileira.
O resultado sugere, mais uma vez, que se está no caminho certo. Para 48% dos entrevistados, o governo deveria estimular a redação de um manual de qualidade. O manual já existe na TV Bandeirantes e, mais recentemente, foi desenvolvido pela produção do "Domingão do Faustão" que, a na disputa pela audiência das tardes de domingo, saiu da linha algumas vezes zombando de um deficiente físico e apresentando mulheres nuas servindo de bandeja para marmanjos saborearem um sushi.
Para 36% das pessoas ouvidas, as emissoras que apresentarem programas considerados apelativos devem ser punidas com multas severas. A opinião do telespectador, nesse caso, bate com a decisão dos donos das emissoras. No dia 10 de dezembro, sentaram-se ao redor da mesma mesa, numa reunião inédita, Silvio Santos, do SBT, João Roberto Marinho, da TV Globo, José Carlos Martinez Correa, da CNT, e Johnny Saad, da Bandeirantes. Ficou decidido que, por meio da Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e TV (Abert), será criada uma comissão independente para aplicar multas às emissoras que desrespeitarem o código de ética da entidade, que também deve passar por revisão, já que data da década de 60.
Para 16% das pessoas ouvidas, o rigor deve ser ainda maior: os donos das emissoras devem ser punidos com a não renovação de sua concessão. Isso pode acontecer. Não por causa de sua programação, mas porque acumula um débito tributário e previdenciário de aproximadamente R$ 250 milhões, o controlador da TV Manchete, Pedro Jacques Kapeller, está ameaçado de não ter a concessão renovada. O ministro das Comunicações, Pimenta da Veiga, deu prazo até 18 de maio para a emissora saldar suas dívidas. A concessão da Manchete venceu em 1996.
Secretário - A pesquisa aproveitou também para avaliar se o telespectador conhece o secretário José Gregori. Dos entrevistados, 82% disseram nunca ter ouvido falar em Gregori, enquanto 18% disseram conhecê-lo. "Fiquei satisfeito só em saber que não sou um anônimo", comentou o secretário, bem-humorado. O secretário é mais conhecido entre as mulheres (84%) do que entre os homens (79%) e entre os entrevistados mais velhos, de 35 a 39 anos (27%) do que entre os mais jovens, de 14 e 15 anos (10%).
A pesquisa também quis identificar se os entrevistados sabiam o que o secretário José Gregori estava fazendo no governo. A grande maioria (79%) não soube dizer. Dentre os que responderam, a questão da TV ficou em primeiro lugar. Melhorando a programação da TV foi a resposta de 8% dos entrevistados; cuidando da reforma previdenciária foi citado por 7% e tentanto libertar presos políticos foi a resposta de 6% dos telespectadores ouvidos.
Para o secretário, a programação da TV tem sofrido melhora nas últimas semanas. Ele cita dois exemplos, ambos da TV Globo. "Diverti-me muito com um episódio do "A Vida ao Vivo", de alto nível e que utilizou apenas uma palavra heterodoxa". O secretário prefere chamar palavrão de palavra heterodoxa.
O segundo exemplo citado pelo secretário é o "Jornal Nacional". Para o secretário, na semana em que apresentou as cenas do massacre em Serra Leoa, na áfrica, o telejornal poupou o telespectador das cenas mais violentas e, antes de exibir a reportagem, alertou para o seu conteúdo. "Isso não era costumeiro", avalia.


