Criticada como alienante pelos intelectuais; acusada de desestruradora de valores familiares pelos defensores da moral e bons costumes e adorada por milhões de telespectadores do mundo inteiro, a telenovela sempre foi um tema aberto a discussões acaloradas. Das soap-operas americanas aos dramalhões mexicanos, passando pelo principal produto cultural de exportação brasileiro - as novelas globais -, as telenovelas, porém, têm sido encaradas apenas como forma de entretenimento e diversão, seja pelos críticos ou fãs assumidos.
Vê-las como instrumento de educação ou difusor de cultura nunca havia passado pela cabeça nem dos seus mais otimistas defensores. Isto até que a professora Maria Aparecida Baccega, livre-docente da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (Eca/Usp), assumiu a coordenação do projeto ‘‘Ficção e Realidade: a Telenovela no Brasil, o Brasil na Telenovela’’. Trata-se de um conjunto de 10 subprojetos que, desde o começo do ano passado, reúne 30 pesquisadores analisando a telenovela sobre vários ângulos, desde o comportamento dos telespectadores até o conteúdo e enredo de cada uma. Com os primeiros resultados a professora anda causando arrepios nos meios acadêmicos que, tradicionalmente, desdenham tal gênero.
Mas, independente dos resultados finais do projeto, Baccega já conseguiu converter pelo menos uma pessoa: a estudante de Jornalismo da Universidade Estadual de Londrina, Patrícia Rosana Piveta. Ela defendeu ontem seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) ‘‘Telenovela: um dos Procedimentos Educativos da Sociedade Brasileira’’, com a presença da professora paulista na banca examinadora.
Preconceito Segundo Patrícia, fazer o trabalho foi uma espécie de desafio para ela mesma. ‘‘Quando escolhi o tema enfrentei gozações até dos colegas. Mas meu objetivo principal era me convencer que a telenovela tinha algum valor cultural e consegui’’ - afirma. Mas não foi fácil. ‘‘Primeiro porque a literatura sobre o assunto é muito limitada. Existem poucos estudos a respeito e, na maioria, analisam superficialmente e apenas o aspecto sociológico da telenovelas’’ - diz. O trabalho só pôde prosseguir quando o orientador de Patrícia, o professor Paulo Boni, indicou o projeto coordenado por Baccega. ‘‘Como ele está fazendo doutorado na USP, tomou conhecimento deste projeto. Fui até lá, conversei com os pesquisadores, entrevistei a Baccega e consegui material para meu trabalho’’ - conta.
Patrícia dedicou o primeiro semestre deste ano à leitura, para conhecer melhor esta área. ‘‘Estas leituras serviram, primeiro, para me convencer que a telenovela não é só superficialidade e obscenidade. E hoje, se alguém me disser que telenovela aliena, vou ter que discordar veementemente’’ - avisa. O que mais a surpreendeu no desenvolvimento do seu trabalho, entretanto, é o frequente preconceito que as pessoas têm em relação ao assunto. ‘‘Quando pedi a uma amiga de Curitiba que comprasse o livro ‘Memórias da Telenovela Brasileira’’, de Ismael Fernandes, que só se encontra por lá, ela quase morreu de vergonha apenas por ter que pedir o exemplar na livraria. E olha que, embora não seja fanática, ela também assiste a novelas’’ - brinca.
Literatura Embora baseando seu trabalho no projeto da USP, Patrícia limitou-se apenas a um dos aspectos desenvolvidos nele, o da educação, para não se tornar abrangente demais. ‘‘Eles estão desenvolvendo 10 linhas diferentes de pesquisa sobre a telenovela: dramaturgia, linguagem de cinema, recepção, transposição do romance, imaginário infantil, valores, estética, evolução das temáticas, a personagem negra e a construção do cotidiano. Cada um deles é fascinante por si só. E mal posso esperar para ver os resultados das pesquisas publicados’’ - afirma.
Uma das conclusões a que Patrícia chegou, baseando-se neste trabalho, é que, embora não tenha o objetivo de educar - a função principal das telenovelas é realmente entreter - somente o fato de levar a milhões de telespectadores informações variadas, o gênero deve ser visto com mais respeito. Segundo a universitária, inúmeros autores já estão se conscientizando do fato e inserindo ‘‘pitadas’’ de conhecimentos nos enredos (tipo campanhas de doação de órgãos e crianças desaparecidas). Outro lado bom são os roteiros adaptados da literatura, seja em novelas ou minisséries. ‘‘As adaptações são um meio fazer conhecer parte da produção literária brasileira a uma grande maioria da população que não consome este tipo de produto’’ - explica.
E, segundo ela, embora alguns autores não gostem de ver suas obras adaptadas para a TV - por acreditar que se o público acompanhar o enredo em uma novela ou minissérie, não vai comprar o livro - , é considerável o aumento da procura por obras adaptadas quando vão ao ar. ‘‘É só ver o que aconteceu com ‘Tieta’, de Jorge Amado; com ‘Agosto’, de Rubem Fonseca; e ‘O Sorriso do Lagarto’, de João Ubaldo Ribeiro, por exemplo. Depois que foram ao ar a vendagem destes livros aumentou consideravelmente’’ - afirma.
As novelas de época, aliás, são outra fonte de conhecimento. ‘‘Para fazer uma novela deste tipo, as TVs tomam o maior cuidado na reconstituição da época, tanto nos figurinos, cenários, como nos acontecimentos que marcam o momento e que geralmente servem como pano de fundo para a história. A minissérie ‘‘Agosto’’ foi típica porque reconstituiu um episódio importante da nossa História que muitos brasileiros áconheciam apenas superficialmente’’ - diz.

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