Telejornal aliena mais que novela
O projeto Ficção e Realidade: a Telenovela no Brasil; o Brasil na Telenovela, coordenado pela professora Maria Aparecida Baccega, é composto por um grupo de 10 professores dos departamentos de Comunicações e Artes, Artes Cênicas e Educação da USP, uma especialista em dramaturgia da telenovela e até um pesquisador do Conselho Superior de Franceses no Estrangeiro, além de bolsistas de Iniciação Científica de diferentes universidades brasileiras.
Subdividido em 10 áreas de pesquisa individuais, os subprojetos se desenvolvem em áreas do saber distintas, o que permite que os conhecimentos se complementem, distiguindo-se e entrecruzando-se. Isto possibilita um resultado conjunto que abrange tanto a emissão como a recepção das telenovelas.
Os objetivos gerais do projeto são compreender a influência da telenovela sobre o comportamento da sociedade tanto quanto esta influencia no seu processo de produção; verificar como se deu o desenvolvimento deste setor na indústria cultural até que se tornou um dos mais importantes produtos de exportação brasileira; analisar as identidades culturais presentes nas telenovelas; e verificar as inter-relações entre ficção e realidade, na busca de subsídios para interpretações dos valores da sociedade brasileira contemporânea, entre outros.
Com previsão para ser concluído no próximo ano o projeto já apresenta algumas conclusões que mexem com os preconceitos atuais sobre o assunto. Em uma entrevista que Maria Aparecida Baccega concedeu à revista Veja, no início deste ano, a professora afirma que quem acha que a novela aliena está na verdade chamando o povo de débil mental. É bobagem pensar que alguém é induzido a pensar que a vida é um mar de rosas só por causa de um enredo açucarado.
Nesta entrevista, a professora garante também que as novelas alienam menos que os telejornais porque ao assistir uma novela o telespectador sabe que se trata de ficção. Já o mesmo não acontece em relação a um telejornal. A pessoa tem certeza que está vendo a realidade e, por isto, corre um risco maior de ser enganada. (...) Um caso clássico é o do debate entre Fernando Collor de Mello e Lula, na campanha presidencial de 1989. A edição do debate que a Globo jogou no ar mostrava um Lula completamente perdido e um Collor triunfante, o que não correspondia à realidade. Com novela, isso não acontece - todo mundo sabe que aquilo é só historinha.
Ainda nessa entrevista, Baccega diz que os telespectadores são críticos em relação ao que vêem e que os intelectuais não percebem que a novela sempre foi educativa, no sentido de levantar discussões para um público relativamente mal informado. Na década de 70, os autores faziam isto de forma mais sutil.(...) Nos dias atuais, sem a censura, as discussões podem ser mais abertas. Uma das últimas novelas da Globo, A Próxima Vítima, incluiu assuntos como homossexualidade e preconceito racial. Todos que a viam, e até mesmo as que não acompanhavam, foram levados a refletir sobre estes assuntos....
Porém, ainda que seja uma das poucas defensoras do gênero, Maria Aparecida Baccega não perde de vista também o lado mau das novelas, o de reproduzir preconceitos, como a discriminação social com os negros e outras questões. Acho que é preciso discutir se os valores que ela (telenovela) passa são os mesmo que a sociedade brasileira gostaria de ver inculcados em seus filhos. É provável que muitos não sejam - assegura.





