Arquivo/FolhaBoris Casoy: ‘‘A diferença entre o apresentador e o âncora está na autonomia’’A disputa entre Record e SBT pelo passe do jornalista Boris Casoy é apenas uma amostra de como o telejornalismo brasileiro passou a valorizar a figura do âncora em detrimento do tradicional locutor. As emissoras de tevê encaram os jornalistas que comandam os telejornais de forma personalizada como seus porta-vozes.
Quando a Record contratou o âncora conhecido pelo bordão ‘‘É uma vergonha!’’, estava pensando em aliar sua credibilidade à imagem do canal. ‘‘A contratação de Casoy mostra nossa intenção de fazer um jornalismo com credibilidade e independente. O Jornal da Record será o primeiro em prestígio’’, afirma o diretor de programação da Rede Record, Eduardo Lafon.
No ano passado, para reforçar o caráter independente de seus noticiários, a Rede Globo passou a colocar jornalistas no lugar dos apresentadores. A primeira substituição foi a dos locutores Cid Moreira e Sérgio Chapelin pelos jornalistas Willian Bonner e Lilian Witte Fibbe, no Jornal Nacional.
Na Bandeirantes, essa moda também já pegou. ‘‘O apresentador não pode ser um papagaio, que termina o jornal e não sabe o que acabou de ler’’, analisa Rubens Furtado, diretor-geral da emissora. ‘‘Hoje, ele participa da produção do noticiário, está sintonizado em tudo que o cerca e mostra sua opinião. Daqui para a frente, não há como não ser assim’’. Para Furtado, a confiabilidade e a credibilidade do apresentador se refletem na imagem institucional das emissoras. ‘‘O âncora é a cara e a opinião do canal’’.
Boris Casoy, que esta semana despediu-se do TJ Brasil, do SBT, afirma que a diferença entre o apresentador e o âncora está na autonomia. ‘‘Só o âncora tem autonomia suficiente para selecionar matérias, escolher a equipe com quem vai trabalhar e opinar no jornal que apresenta’’, explica. ‘‘Sempre disse o que quis, mesmo de improviso. Acho que o público acredita no que o âncora diz, confia nele.’’
Segundo Willian Bonner, dificilmente os espectadores conseguem fazer distinção entre um e outro tipo de profissional. ‘‘O público só percebe a diferença em situações-limite. Se a imagem de uma reportagem não entra no ar, por exemplo, o âncora terá mais condições de suprir as informações de improviso, pois seu papel é juntar apresentação e bastidores’’.
Paulo Henrique Amorim, âncora do Jornal da Band, diz que o âncora tem uma responsabilidade muito grande: a de ‘‘tentar oferecer uma combinação de notícias sérias e aprofundadas, sem ser chato ou enfadonho’’. Nesse sentido, o apresentador vê a função como uma extensão do trabalho de repórter. ‘‘O mais difícil é mostrar que se é isento, e que não se quer impingir opiniões. Quem tem de ter opinião é o espectador’’.
Primeiro Mundo - Hermano Henning, que desde terça-feira substitui Boris Casoy no comando do TJ Brasil, diz que a adoção de âncoras para a apresentação dos telejornais é um sinal de que o jornalismo brasileiro está entrando no Primeiro Mundo. ‘‘Essa história de modelo apresentando jornal é coisa de país subdesenvolvido’’, afirma.
Já Chico Pinheiro, que atualmente acumula as funções de apresentador e chefe do Bom Dia São Paulo e apresentador interino do Fantástico, recusa o rótulo de âncora. ‘‘As pessoas acham que quem faz comentários é âncora, mas para mim isso não existe’’, afirma. ‘‘Isso é uma noção importada dos EUA, onde existe o anchorman, um apresentador que fica no estúdio, aciona repórteres ao vivo e amarra a edição no ar’’.

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