São Paulo, 07 (AE) - Cem anos de Douglas Sirk. Completa-se no dia 26 o centenário de nascimento de Detlef Sierck. Com o nome de Douglas Sirk, o emigrado alemão de origem dinamarquesa tornou-se o rei do melodrama em Hollywood, nos anos 50. Seus grandes filmes transcendem o quadro do gênero para oferecer retratos críticos e lúcidos sobre a família americana no período. O Telecine 5 (Net/Sky) resgata esse grande artista que ainda não obteve todo o reconhecimento que seu talento merece, dedicando-lhe um ciclo de dez filmes.
Nove são inéditos no canal, a iniciar pelo que abre amanhã (08), às 22 horas, a programação: "Palavras ao Vento" (já exibido, há muito tempo, na TV aberta). A lista de inéditos prossegue, pela ordem de exibição, com "Sinfonia Prateada", "Chamas Que não se Apagam", "Herança Sagrada", "Mulher de Fogo", "Tudo o Que o Céu Permite", "Desejo Atroz", "Almas Maculadas" e "Amar e Morrer". Encerrando o ciclo, passa, no dia 19, o único filme de Sirk que já integra a programação do Telecine 5 - "Imitação da Vida".
Sirk começou realizando filmes em preto-e-branco. Quando descobriu o potencial dramático da cor, integrou-a às suas narrativas. Robert Stack e Dorothy Malone dirigem a toda velocidade seus carros amarelo e vermelho em "Palavras ao Vento". Ela usa um robe cor-de-laranja na frenética cena de dança que, com certeza, contribuiu para que a atriz recebesse o Oscar de coadjuvante de 1957. Por mais refinado que seja o uso da cor no cinema de Sirk, ele não era Vincente Minnelli. E o vigor do seu estilo está em outra parte.
Ele chegou ao cinema já com uma sólida formação humanista e após uma brilhante carreira no teatro, na Alemanha, quando montou grandes autores, dos trágicos gregos (Sófocles) a Brecht, passando por Shakespeare, Molire, Calderón, Strindberg e Shaw. Sua formação clássica transparece na rigorosa estrutura de seus melodramas. Ele subverte as convenções do gênero lacrimoso para oferecer, com seus filmes, uma precisa concepção estética e uma crítica aguda da sociedade em que se situam seus personagens.
Em "Tudo o Que o Céu Permite", por exemplo, intuiu (em 1955!) a força que a TV iria adquirir na vida moderna e investe contra a submissão das pessoas ao aparelho que somente acentua o conformismo e o vazio de suas vidas. Em 1934, Sirk era o mais famoso diretor de teatro da Alemanha, mas não hesitou em abandonar o palco e iniciar uma nova carreira no cinema, convencido de que a rígida censura nazista estava cerceando a atividade teatral. Dirigiu duas vezes (em 1937) a grande estrela alemã Zarah Leander, nos filmes "Recomeça a Vida" e "La Habanera".
No ano seguinte, renunciou ao futuro que Goebbels lhe oferecia no cinema nazista para iniciar a aventura do exílio. Fez filmes na França e na Holanda antes de chegar a Hollywood. Teve duas fases no cinema americano. A primeira, nas empresas Warner e Columbia, foi de adaptação a Hollywood (e à América, de maneira geral), como ele mesmo gostava de dizer. A segunda, na Universal, marcou o pleno desenvolvimento do seu potencial. Sirk virou o artista que os maiores, de Jean-Luc Godard a Rainer Werner Fassbinder, nunca deixaram de celebrar como gênio.
Mais até do que Alfred Hitchcock, no livro com a entrevista concedida a François Truffaut, ou Elia Kazan, no livro de Michel Ciment, Sirk era capaz de analisar sua obra em profundidade, esmiuçando, por trás das pressões e injunções comerciais, não apenas suas intenções, mas também o resultado de seus filmes. O livro com a entrevista que deu para Jon Halliday é clássico, um dos melhores já escritos sobre o cinema (e um cineasta). Publicado nos Estados Unidos, na Europa e em países de língua espanhola da América Latina, infelizmente nunca interessou aos editores brasileiros. Pior para o público que o refinado Sirk sempre teve e, com certeza, ainda tem no País. Enterros - O ciclo terá valor de descoberta para toda uma geração de espectadores. Traz cenas que fazem parte das emoções memoráveis do cinema. O funeral de Juanita Moore no desfecho de "Imitação da Vida" (que o SBT, na TV aberta, exibiu muitas vezes como Odeio Minha Mãe), a extraordinária cena do carro fúnebre abandonado numa rua deserta, em meio aos escombros de um bombardeio, em "Amor e Morrer". Não são imagens aleatórias. Sirk, que viveu o horror da guerra, sofria na carne por sua consciência de que o humanismo era um valor em baixa num mundo cada vez mais mercantilista.
Por volta de 1960, embora fosse o diretor de maior sucesso na Universal, abandonou o cinema, convencido de que a produção de Hollywood não correspondia mais às exigências do mundo moderno. O mundo e o cinema mudaram nos anos 60, a década das transformações profundas, mas Sirk nunca mais voltou a filmar, privando-nos de sua sensibilidade e seu talento. Ocasionalmente, dirigiu para teatro, mas até esse largou para viver exilado na Suíça, até sua morte, em 1987.
É significativo que tenha sido esse estrangeiro o homem que talvez melhor tenha falado sobre a família americana, nos anos 50. "Palavras ao Vento" é emblemático. Robert Stack e Dorothy Malone fazem irmãos milionários que pertencem a uma família texana. São os personagens vacilantes que sempre seduziram Sirk. Stack é casado com Lauren Bacall. Quando ela fica grávida, ele acha que o filho é de seu melhor amigo, Rock Hudson. É um filme sobre o conflito entre vida e morte, sobre pessoas autodestrutivas e o mal que fazem a elas mesmas e aos outros, ao redor. É um belo começo para a homenagem do Telecine 5 ao centenário de Sirk.
Dos demais filmes, não há um só que não mereça atenção, mas vale um destaque especial para "Almas Maculadas", que os críticos quase sempre consideram a obra-prima de Sirk (e a melhor adaptação de William Faulkner para o cinema). Na entrevista para Halliday, Sirk não hesita em afirmar que, ao contrário de outros emigrados famosos, já chegou à América embasado na melhor tradição da grande literatura anglo-saxônica. Havia lido Melville, que comparava a Kafka, Henry James, mas o autor que mais o influenciou na configuração de uma visão crítica dos Estados Unidos foi Faulkner.
Sirk sempre quis adaptar "Pylon". Teve de abrir mão de vários projetos, ao longo de sua carreira, mas esse ele conseguiu concretizar. O próprio Faulkner era admirador do filme
que reúne três nomes importantes do elenco de "Palavras ao Vento" - Rock Hudson, Dorothy Malone e Robert Stack. Aviação - O cineasta já havia tentado adaptar "Pylon" na Alemanha, como peça de teatro e filme. Concretizou o projeto na Universal. Rock Hudson faz um jornalista bêbado de New Orleans. Burke Devlin é seu nome. Fica obcecado por uma família ligada à aviação. Roger Schumann (Robert Stack) é piloto, a mulher dele, Laverne (Dorothy Malone), é pára-quedista. Laverne é o protótipo da mulher-objeto. Bonita de olhar, quando salta, é também uma mercadoria para ser trocada: o marido realmente a troca por um avião, mas ele próprio a adquiriu num jogo de dados.
O tema da aviação é contraposto à segurança da vida em terra, mas um suicídio subverte os esquemas melodramáticos e dá ao filme uma verdadeira envergadura de tragédia. De todos esses filmes, o menos sirkiano parece ser "Herança Sagrada". Afinal, é um western sobre Taza, o filho do lendário chefe Cochise. Sirk é o maior defensor do filme, que rodou em Moab, no Utah, em autênticas reservas indígenas, com cuidados especiais na reconstituição do modo de vida dos peles-vermelhas. Ele gostava de dizer que seus índios não eram domesticados como os dos faroestes de John Ford e lhe causaram muitos problemas na cena de batalha, que considerava o maior desafio de toda a sua carreira. "Sinfonia Prateada", primeiro filme colorido do diretor, é um filme nostálgico sobre um milionário que, nos anos 20, planeja deixar sua fortuna para a mulher que rejeitou sua proposta de casamento no passado. A interpretação de Charles Coburn é a própria razão de ser da obra, mas há outros dois destaques no elenco: Rock Hudson, que depois virou o ator-fetiche de Sirk, e um jovem que aparece fugazmente, mas haveria de se transformar no emblema do transviado nos anos 50. Ele, sim - o mítico James Dean.

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