Telecine 5 exibe 'Aurora', de Friedrich Wilhelm Murnau18/Mar, 14:38 Por Luiz Carlos Merten São Paulo, 18 (AE) - Há momentos de filmes que um espectador não esquece e guarda para toda a vida, como parte das emoções memoráveis que se pode ter no cinema. Há muitos momentos assim em "Aurora'', a obra-prima de Friedrich Wilhelm Murnau que estréia segunda-feira (20), às 22 horas, na programação do Telecine 5 (Net/Sky), com reprise na terça, às 15h20. A câmera acompanha George O'Brien num movimento lateral, quando ele atravessa um jardim florido, um roseiral. A câmera adianta-se, passa o ator e chega até a mulher, a amante, ao encontro de quem ele está indo. O filme é de 1927. A beleza permanece intata. Mais de 70 anos depois, por cenas como essa - e pela harmonia da concepção estética -, "Aurora'' permanece como um dos grandes filmes de todos os tempos. Há um mistério Murnau. Em geral, fala-se no mistério da criação artística, esse mecanismo que faz com que um artista, seja homem ou mulher, crie sensações ou estimule estados de espírito carregados de vivência pessoal e profunda, que podem suscitar no outro o desejo de prolongamento ou renovação. Se há um mistério, ele não pode ser palpável, mas o de Murnau manifesta-se de múltiplas maneiras - na sua preferência pelo fantástico, no fascínio das luzes e sombras que percorrem todos os seus filmes, nas brumas da sua homossexualidade e no próprio método do artista. Os críticos gostam de dizer que nenhum outro grande autor apostou tão pouco no acaso. Mas o fotógrafo de "Aurora", Charles Rosher, afirmava que Murnau tinha um dom todo especial para filmar o que se apresentava por acaso. Definições contraditórias, que no fundo talvez sejam complementares e ajudem a entender por que especialistas gostam de dizer que Murnau era mestre na arte de captar a natureza no artífício. A prova está em "Aurora". Há outro momento inesquecível: a câmera do ponto de vista de um trem em movimento de tal maneira que a cidade se apresenta aos olhos do espectador como uma selva. É um tema fundamental do filme - a selva da cidade. Murnau contrapõe a vida idílica do campo ao turbilhão da cidade por meio da história de um casal. George O'Brien e Janet Gaynor são fazendeiros. Vivem o que parece o casamento perfeito. Mas ele arranja uma amante que tenta induzi-lo a matar a mulher. Janet foge e vai para a cidade. O marido consegue resgatá-la. Renovam os laços de amor e voltam para casa, mas há uma tempestade. O'Brien salva Janet, afugenta a amante e a vida de ambos recomeça numa aurora que encerra uma promessa de felicidade. Décadas depois de Murnau, os italianos Federico Fellini e Michelangelo Antonioni também colocaram em discussão o alcance metafórico da aurora em filmes como "A Doce Vida" e "A Noite". Os dois pessimistas - para nenhum deles, a aurora traz uma promessa de libertação. Essa libertação é que fascinava Murnau. Está no desfecho de "Aurora" e também no de "Nosferatu", na claridade que dissipa as trevas que servem de refúgio para o vampiro. Na época, Murnau havia feito, na Alemanha, "Nosferatu" e "A Última Gargalhada", também conhecido como "O Último Homem", que, em geral, são considerados os maiores filmes dele. Talvez seja o caso de se reivindicar esse título para "Aurora". Foi o primeiro filme americano do diretor. Foi um dos três que, em 1927-1928, valeram a Janet Gaynor o primeiro Oscar de melhor atriz da história (os outros dois: "Sétimo Céu" e "Anjo das Ruas"). A atriz é sublime, passando para o espectador uma fragilidade e uma emoção só comparáveis às de Lillian Gish, a incomparável estrela do cinema mudo. Murnau baseou-se num romance alemão ("Viagem para Tilsit", de Herman Sudermann), mas adaptou o filme perfeitamente ao quadro e às condições dos Estados Unidos. Apesar da aparente simplicidade, foi um filme caro, pois ele fez construir a cidade em estúdio, de forma a garantir a liberdade de movimentos de câmera que considerava imprescindível ao projeto. Apesar da grandeza e qualidade da obra, fracassou na bilheteria e isso comprometeu o desenvolvimento da carreira de Murnau. Ele fez só mais três filmes antes de morrer, em 1931, em circunstâncias misteriosas, que só fizeram aumentar o mito. "Aurora" permanece como um belíssimo poema visual que exalta o amor. O tempo passa e o mistério de Murnau segue inalterado.