TELAS, em um tempo diferente da realidade
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segunda-feira, 23 de abril de 2007
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
José Gonçalves, um código decifrado de um mundo surreal, onde as tintas e cores combinam entre si, como senha de acesso. A inspiração do artista plástico é a palavra-chave.
Ao chegar nesse universo esquadrinhado por Gonçalves, os apreciadores da obra do londrinense encontram os personagens dos sonhos, das lembranças e do cotidiano do artista, que vivem em um tempo diferente da realidade.
''A partir daí, as pessoas passam a ter uma outra visão das coisas'', afirma Gonçalves que acaba de encerrar a exposição ''Outro Tempo'', na Judi Rotenberg Gallery, de Boston (EUA).
As 18 telas expostas não voltarão para o Brasil, como acontece toda vez em que expõe nos EUA, país onde a aceitação de seu trabalho é tão grande, que o artista começa sempre uma exposição com pelo menos metade do acervo vendido.
Londrinense que nasceu em Santa Cruz do Rio Parto (SP), mas que adotou Londrina, desde que veio estudar Arquitetura na Universidade Estadual de Londrina (UEL), Gonçalves não pensa em se mudar para os EUA ou outro país em que sua obra ganhou visibilidade.
''Prefiro um lugar mais calmo para trabalhar. Tive oportunidade de morar em Boston, mas acredito que não preciso morar fora para produzir. Acho bacana morar em Londrina porque tenho espaço apropriado para trabalhar. O que me ajuda a produzir na cidade é a temperatura, o clima, a luz, o verde. Isso me ajuda muito. O frio me trava. O cinza de algumas cidades deprime as pessoas, o que pode aparecer nos quadros. O verde e as cores do Brasil, quando o quadro é exibido fora, fazem com que a obra acabe sendo muito original'', avalia Gonçalves, acrescentando que mesmo tendo como porto de sua obra Londrina, as telas precisam ter uma leitura universal.
As telas de Gonçalves são o código da própria vida do artista decifrado e escancarado para as pessoas, que podem ver as entranhas de sua intuição. ''É o meu olhar de homem sobre meus sonhos de menino; é a minha história contada pelos pincéis e vista com outros olhos por quem me observa. Meus sonhos existem só porque pinto'', afirma o artista.
O que Gonçalves diz está presente na série de quadros da exposição ''Outro Tempo'' em que do branco ao cinza e preto, a resposta desse código aparece na ausência de cor.
São cenas de praia e outras amenidades, que no tratamento do pincel e tinta, formam o mundo único de Gonçalves, abandonando, muitas vezes, o primeiro plano para mergulhar mais profundo a percepção do observador.
Entre os que têm obras de Gonçalves nos EUA estão nova-iorquinos, que se identificam com o surrealismo do londrinense, que acredita na reprodução de obras, como caminho para a democratização da arte.
''A reprodução não interfere na exlusividade de uma obra já que, o orginal é único. É uma forma do trabalho artístico andar'', avalia Gonçalves.
Ele acredita também que arquitetura ajudou a construir as paredes e os alicerces de seu trabalho. ''Na minha vida sempre desenhei, mas nunca pensei que pudesse ser um pintor. Não procuro jogar a visão do arquiteto, mas uma perspectiva mais errada do que certa, criando planos diferentes. A arquitetura contribuiu para deixar o meu trabalho mais contemporâneo, já que o arquiteto precisa estar acompanhando as tendências. Porém, o principal do pintor é ele estar sempre trabalhando, tendo uma produção'', destaca o artista plástico.
Com trabalhos publicados na Revista Vogue, Gonçalves lembra que nos primeiros anos de carreira, as pessoas questionavam a sua opção de largar a arquitetura. ''Procuro fazer o que eu quero, da maneira mais honesta possível e, se eu estiver gostando, a obra se segura. Se passar pela minha crítica está bom. Eu sou crítico o tempo todo'', conclui Gonçalves.


