Tecno versus Rock
PUBLICAÇÃO
sábado, 03 de maio de 1997
Nelson Sato 
Tecno. Tecno. Tecno. Como a batida que caracteriza o gênero, a mídia repete à exaustão o nome da nova onda musical que assola o planeta pop.
Com tanta badalação, ninguém mais está alheio ao tum-tum-tum eletrônico. De revistas especializadas a suplementos culturais da grande imprensa, muito já se escreveu sobre o estouro da música dançante incluindo artigos acadêmicos e glossários para melhor situar os leitores sobre as inúmeras variantes do ritmo.
Falou-se muito sobre as diferenças do tecno em relação à dance comercialóide que infesta FMs e danceterias caídas. Houve quem proclamasse o fim do rock com a nova revolução sonora urdida por DJs a partir da utilização de samplers, computadores, baterias eletrônicas e aparelhos digitais.
ReproduçãoProdigy: banda inglesa que é uma das expoentes do tecno. É considerada mais punk do que a maioria das bandas auto-intituladas punk que circulam por aí. Está para lançar seu terceiro álbum.
O sucesso de bandas como Chemical Brothers e Prodigy, expoentes britânicas do gênero, ajudou a estabelecer a cena convertendo seguidores de outros estilos musicais mais agressivos. Em Londrina, algumas festas regadas a tecno têm atraído um público de iniciados. Mas o povo ligado em rock se divide sobre o fenômeno. A seguir, veja o que pensam alguns músicos de bandas locais.
A gente ouve tecno há um bom tempo. Não achamos que ele vá abalar o rock, que tem muito ainda para ser inovado, usando inclusive a influência dos sons eletrônicos. O problema é que o tecno está virando modismo. Há um ano, perguntei sobre discos do Prodigy e do Chemical Brothers em algumas lojas de São Paulo e ninguém conhecia. Agora tá essa onda... Hoje está tudo informatizado. E isso se espelha na criação de sons. O tecno traz uma nova linguagem, com a exploração do sampler para produzir efeitos. Tem muita agressividade. Soa a máquina. É a música da época que estamos vivendo agora. Ela reflete o som ambiente das ruas. Teve a época do blues e do jazz. Depois rolou a Segunda Guerra e outras paradas e tudo foi acompanhado pela música. Hoje em dia você liga a TV e sai sangue. Por que não pode sair sangue quando você liga o rádio?
Willian (guitarra e vocal) e Waldner Fernandez (bateria), da banda Core.
Eu, particularmente, não gosto de tecno. Respeito como diversidade musical, mas não vejo no som a mesma consistência encontrada no rock. Quando estive na Europa, no ano passado, cheguei a ver uma banda com três caras de cabelo moicano tocando dance. Mas não percebi a mesma adrenalina de um show ao vivo com guitarra, baixo e bateria. Acho que essa onda toda é passageira. Veja que o berço dessas bandas tecno é a Inglaterra, que é o país em que a mídia coloca uma banda lá em cima e depois chuta fora substituindo-a por outra. Prova disso é que até pouco tempo só se falava de Oasis, e agora ele já está um pouco por baixo. Isso ficou bastante acentuado nos anos 90. Tudo é muito rápido. Pra mim, o pop inglês morreu na década de 80 com Jesus and Mary Chain, Echo & Bunnymen, Cocteau Twins e outras bandas da época. Essa onda tecno vai passar. Logo vai pintar uma nova safra de bandas que não vão ter nada a ver com isso.
Denoir Sibié, vocalista da banda Gumes Fatais.
Milton DóriaJoão Henrique, da banda Magik Balloon: Alguns discos de tecno são geniais.
O tecno é um estilo musical a mais, que não veio para acabar com o rock como se tem falado por aí. Veja que os Beatles e o Led Zeppelin nunca venderam tantos discos como hoje. E bandas inglesas atuais como Oasis, Blur, Pulp e Bush têm um público enorme. O som eletrônico, na verdade, sempre existiu. O Nine Inch Nails vem há tempos trabalhando nessa vertente. O Beastie Boys também. O problema é que a mídia resolveu ressuscitá-lo novamente. Ouço algumas bandas tecno e acho alguns discos geniais e que vão influenciar muita gente. O último do Chemical Brothers, por exemplo, é inovador. A música com a participação do Noel Gallagher, do Oasis, é fantástica. O novo álbum do David Bowie também é muito bom. Outros caras como o Beck ou bandas como o Folk Implosion também estão explorando sons eletrônicos. Prova de que o rock está vivo, está sempre buscando outras fontes para inovar.
João Henrique, vocalista e guitarrista do Magik Balloon.
O tecno não tem alma, não tem qualidade, é lixo eletrônico. É música feita por computador para tocar em FM, aparecer em clipe de MTV e embalar robô modista. É moda e vai acabar. O rock não tem nada a ver com essa onda. O rock é clássico desde o início. É um gênero musical que não precisa se misturar com outros estilos de som para se manter vivo. Algumas bandas de heavy metal como Fear Factory e Mishughar tentam colocar elementos eletrônicos como apelo comercial e acabam soando simplesmente ridículas. Viram lixo puro. O que acontece é que o cara acha que atingiu a maturidade criativa e resolve enfiar algumas coisas na música só para dizer que está inovando. Então eles colocam samba, berimbau, Carlinhos Brown e outras coisas que acabam matando o virtuosismo que sempre marcou o rock. Daqui a pouco, vão misturar com som sertanejo e dizer que estão inovando.
Fernando Nicolini, vocalista da banda Dhuend.
O tecno não tem nada de novo. É uma consequência da exploração da tecnologia na música que vem desde a música concreta da década de 50, quando compositores eruditos com Pierre Boulez faziam colagens sonoras usando ruídos e barulhos da natureza. No rock, essa recurso já era utilizado pelas bandas experimentais de rock progressivo. Por isso, não acho que essa retomada atual vá acabar com o rock. Acho até que os músicos de rock deveriam aproveitar mais o que a tecnologia digital oferece, porque hoje em dia você pode entrar no seu quarto com um teclado e um sampler e sair de lá com um CD. É possível que, com essa facilidade, aumente o índice de porcarias lançadas no mercado. Mas aí entra o bom senso para saber o que é bom e o que é ruim. Acredito, enfim, que no rock vão rolar cada vez mais misturas com outros estilos e gêneros musicais podendo coexistir tranquilamente o tecno com o power trio à base de guitarra-baixo-bateria.
Marco Tureta, guitarrista da banda Convulsão.


