São Paulo, 29 (AE) - Ron (Ronald) Judkins ganhou duas vezes o Oscar da Academia de Hollywood: por "Parque dos Dinossauros" e "O Resgate do Soldado Ryan". Desde "Hook, a Volta do Capitão Gancho", é o técnico de som de todos os filmes de Steven Spielberg. Concorreu ao prêmio também por "A Lista de Schindler". "Mas era o ano de "Parque dos Dinossauros" e aí eu perdi concorrendo comigo mesmo", diz rindo.
Judkins está no Brasil participando do Festival do Rio 99. Veio mostrar o filme que assinala sua estréia na direção. "The Hi-Line" é um relato intimista sobre uma garota que descobre ser filha adotiva e parte em busca dos pais biológicos. Sua viagem a leva à fronteira canadense, à região que dá título ao filme. É um road movie, define o diretor, mas não um filme de estrada tradicional. "Nele coloquei meu coração", diz Judkins.
Ele explica sua opção pelo intimismo. "Sendo um técnico de som conhecido na minha profissão, não queria estrear com um filme que as pessoas dissessem: Lá vem aquele cara barulhento; queria algo que surpreendesse". Ele próprio se surpreendeu. Acha que fez um filme sincero e delicado. O público do Festival do Rio parece ter concordado. "The Hi-Line" fez sucesso em todas as suas apresentações, sinal de que a propaganda boca-a-boca funcionou.
Antes disso, o filme interpretado por Rachel Leigh Cook, Ryan Alonso e por Margot Kidder (da série Superman), já havia sido exibido com êxito no Festival de Sundance. Ganhou elogios de jornais e revistas influentes dos Estados Unidos, que o acharam lindamente fotografado (por Wally Pfister) e interpretado. Discriminação - Não é uma obra autobiográfica. "Não sou filho adotivo", diz Judkins, assinalando que todo mundo lhe faz essa pergunta. Não se incomoda, mas não gostaria de incentivar nenhuma espécie de discriminação contra os adotados. "Muitos deles são mais amados do que filhos biológicos; amor não depende necessariamente de DNA", explica.
O roteiro mudou sucessivas vezes até chegar à forma definitiva. "Me interessa muito um tipo de discussão que está no centro de "The Hi-Line": ela diz respeito ao passado, à forma como ele consegue influenciar o presente". No caso, é o pai biológico, que está na prisão, quem envia uma carta que muda a história da filha. Depois que ele revela que é adotiva, a vida dela nunca mais é a mesma.
Outra coisa que todo o mundo lhe pergunta é sobre o trabalho com Spielberg. "Ele é fantástico, tem uma noção do espetáculo e da técnica cinematográficos como eu nunca vi". Por mais que o admire, não é seu modelo. Judkins admite que fez "The Hi-Line" inspirado pela emoção que lhe causou o Atom Egoyan de "O Doce Amanhã". "Era aquele tipo de sensibilidade que queria atingir", conta. Elogia a noção de timing do cineasta canadense, seu desenho dos personagens. "A menina daquele filme com certeza teve ressonâncias na protagonista do meu filme."
Explica que ganhou duas vezes o Oscar de melhor som, mas que é bom não confundir essa categoria com a de edição de som ou efeitos sonoros. "Eu gravo os diálogos, outros se encarregam de encher a trilha de efeitos". Concorda que a maior parte da produção atual de Hollywood é feita por filmes barulhentos, destinados mais para os olhos do que para um olhar atento. Lamenta que a nova geração de diretores, de olho no estilo videoclipe da MTV, tenha perdido o gosto pelo silêncio. Mudanças - Aproveita para avaliar as transformações técnicas ocorridas no cinema. Diz que a linguagem do cinema se formou no período silencioso. "Todo o estilo de narrar vem de lá, por mais que as lentas fusões tenham sido substituídas por cortes frenéticos", critica. Por isso mesmo, lamenta que a nova geração esteja dando as costas às lições do período silencioso. Acha que uma boa maneira de avaliar a eficiência da linguagem de um filme é retirando o som. "Só os filmes bons de verdade continuam comunicando-se", observa.
De volta a Spielberg, acha que ele possui essa capacidade e não tem medo de ousar. "Amistad é um filme que assume muitas lições da cena muda, privilegiando a força da imagem sobre a palavra". Mas concorda com a observação de que a palavra é fundamental para a compreensão dramática do filme, na cena do julgamento. No outro extremo, acha que "Parque dos Dinossauros" depende muito da parafernália de efeitos sonoros. "Mas aí não é o lado humano dos personagens que conta; ninguém vai ver esse tipo de filme por causa dos personagens; o que interessa é a linha geral da história, a emoção, o suspense, o efeito".
Admite que se divertiu muito fazendo "Parque dos Dinossauros" e sua continuação, "Jurassic Park - O Mundo Perdido". Acha que Spielberg faz suas brincadeiras a sério, por mais que sua visão da ciência siga a lógica do desenho animado. Acrescenta que o rigor científico só se justifica para documentários e "essas são obras descabeladas de ficção". O fato de ser um técnico de som não limita suas escolhas. "Admiro muito Stephen Frears, é um diretor atraído por um certo tipo de personagem outsider que também me fascina".
Diz que o ideal, para ele, quando vai ao cinema, é desligar-se dos aspectos técnicos. "Se eu fico avaliando a qualidade do som é porque o filme é uma porcaria; se o filme é bom, eu esqueço e vivo as emoções de qualquer espectador". Espera que "The Hi-Line" não seja uma experiência isolada, um capricho. "Desde que entrei nessa profissão, sonhava realizar o meu filme; espero que minha carreira como diretor tenha continuidade". Dificuldades - Mas pressente dificuldades numa Hollywood polarizada por produções comerciais. "Por mais que trabalhe como técnico nessas produções, o tipo de cinema que me atrai pessoalmente, para minha expressão individual, é outro". Seu compromisso pessoal é com o bom e velho humanismo, por mais que esteja defasado num mundo cada vez mais globalizado. Acha que Hollywood continuará insistindo em produções barulhentas e de grande espetáculo até que algum "Titanic" afunde nas bilheterias.
"Enquanto os filmes barulhentos derem dinheiro, a indústria do cinema vai continuar insistindo na mesma linha", conclui Judkins. Ele já está se despedindo do Festival do Rio: a mostra termina amanhã (30) com a exibição de "Goya", de Carlos Saura.

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