Parece que hoje, em nome da técnica, se pode tudo. Já não há mais fronteira para o trabalho de técnicos no mundo globalizado. Em vez de treinador de futebol, o nome agora é técnico. Em vez de político, administrador para resolver tecnicamente os problemas das cidades. Em vez de operário, técnico disto e daquilo. E até na arte a idéia de técnicos especializados em mídias específicas – seja um estilo, seja o uso de materiais tradicionais ou equipamentos tecnológicos – a idéia de profissionalização se generalizou de vez. E como nas outras áreas, discutem-se muito os efeitos, deixando-se as causas que movem o uso das tecnologias de fora.
Para muita gente a tecnologia é o novo Deus redentor de nosso atraso moral, intelectual, ético e até estético. Uma vez modernizada toda a produção material humana, nossos problemas sociais, como que por milagre, serão sanados. Mas é preciso primeiro perguntar para quê e quem é que se serve de seu uso em um país como o nosso, em que 60 milhões de pessoas vivem em condição de miséria. Veja-se o caso da utilização de agrotóxicos e transgênicos no campo, por exemplo, que não muda um milímetro sequer a questão fundiária. Ao contrário, ajuda a acirrar ainda mais a concentração de terras na mão de poucos.
Por outro lado, não há como negar o desenvolvimento das pesquisas e o trabalho que vem se realizando com a utilização dos meios tecnológicos, só porque jamais serão plenamente democratizados. Mesmo porque não há interesse e recursos suficientes para tanto. De qualquer modo, é bom dizer, a tecnologia em si não substitui a inteligência e a sensibilidade no homem.
Alguns artistas de vanguarda da África do Sul, em uma mostra no ano passado no Sesc Pompéia, em São Paulo, mostraram como é que se pode utilizar os meios eletrônicos para denunciar a ideologia de dominação dos colonizadores. Kendell Geers e Sue Williamson tiraram partido desses meios com instalações de forte impacto político. O primeiro parodiou a pintura histórica ‘‘A Jangada da Medusa’’, em que um navio francês que ia à África buscar escravos afundou, deixando a tripulação à mercê do mar, tendo de se alimentar de carne humana. Geers utilizou-se de centenas de aparelhos de TV, conectados por grossos cabos, exibindo uma mesma imagem de filme B de terror americano, em que uma figura deformada abria e fechava a boca. Já a outra artista mostrava um telão com os generais e as vítimas do apartheid se enfrentando no tribunal, sendo que o espectador podia mover um mouse de computador em que a seta era um dedo indicador esticado, que, quando apertado acionava o controlador de voz que dizia: eu acuso.
Ora, o artista pensa por paradoxos éticos e estéticos. Não era esta a questão central do cinema novo? ‘‘Terra em Transe’’ de Glauber Rocha trata exatamente disso. O conflito entre o poético e o político. Afinal, a arte cinematográfica é a que mais necessita da tecnologia ligada ao mercado e à industria cultural.
Mas, e quando a obra escapa do circuito estrito da arte, sai fora de galerias e museus? É o caso do trabalho de Eduardo Kac, um brasileiro que desenvolve nos EUA pesquisas sobre arte e tecnologia, criando através de processos de modificação genética, clonagem e telemática. Um de seus projetos, desenvolvido com cientistas franceses, é o da criação de um cão com pelagem verde fosforescente, resultante do cruzamento de genes de um cão com algas marinhas. Para o crítico Arlindo Machado, trata-se de uma revolução comparada à descoberta da perspectiva no Renascimento. Pode ser. Só não é possível isentar a tecnologia da ideologia, uma vez que qualquer ação humana – ou sua ausência – nunca, no ser humano, é neutra.
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