Vinte anos de carreira, 16 discos e uma morte estúpida. Depois de quatro dias em coma, o Brasil apreensivo recebe a notícia que não queria: Clara Nunes morria na madrugada do dia 2 de abril de 1983. Tinha 39 anos. Foi na Clínica São Vicente, Rio de Janeiro, onde havia se internado para uma simples cirurgia de varizes. Um choque anafilático tirou a vida da cantora. O corpo foi velado na quadra da Portela, escola do coração, onde uma multidão de celebridades e anônimos se espremiam para prestar suas últimas reverências.
Clara Francisca Gonçalves - que em 75 acrescentou o sobrenome Pinheiro ao casar-se com Paulo César - nasceu em Paraopeba, interior de Minhas. Lá viveu até os 14 anos. Sempre quis ser cantora, reza a lenda. Ensaiava sua sina em festinhas escolares imitando as grandes cantoras do rádio. Elizeth Cardoso era uma das divindades a quem Clara batia a cabeça. Anos mais tarde, mudou-se para Belo Horizonte.
Foi tecelã, formou-se professora (ofício que nunca exerceu), e chegou a ter um programa de TV depois de ganhar um dos prêmios do concurso ‘‘A Voz de Ouro do ABC’’, cantando ‘‘Serenata de Adeus’’, de Vinícius de Moraes. Em 65, ela chegou ao Rio de Janeiro para tentar a sorte. E cantou aqui, ali, acolá, em lugares onde era possível. No ano seguinte, o primeiro disco. Aos poucos foi se encontrando na carreira e na religião - converteu-se ao candomblé; era filha de dois orixás guerreiros, Ogum e Iansã.
O resto da história o Brasil cantou. Em 78, Clara chegou a declarar numa entrevista: ‘‘Não tenho medo de morrer, muito menos de envelhecer. Quero ficar uma velha da pesada. Rosto corado de rouge e participando de tudo, com muito batom e pulseiras’’. Não deu tempo de ficar velha. Disse ela também, certa vez: ‘‘Fui operária. Não brinco de cantora. Acredito que meu público seja todo aquele que gosta de Música Popular Brasileira. Tenho certeza de que, se morresse agora, meu nome iria ficar’’. E ficou, Clara, ficou!! (A.M.J.).

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