Teatros em cena
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 27 de setembro de 2002
Francelino França<br> Reportagem Local 
Nunca se imaginou que o Brasil possui tantos teatros 892 com qualidades e deficiências das mais variadas. O arquiteto e cenógrafo J. C. Serroni realizou um levantamento rigoroso das casas de espetáculos espalhadas de norte a sul do País e agora esse resgate pode ser conferido no livro de arte ''Teatros uma Memória do Espaço Cênico no Brasil'', lançado pela Editora Senac/São Paulo.
Do total de 892 teatros, Serroni elegeu 88 por suas diversas importâncias. Os eleitos foram documentados iconograficamente, enfocados mais detalhadamente com história, ficha técnica e em alguns casos depoimentos de atores, diretores e produtores que passaram por eles, como Paulo Autran, Fernanda Montenegro, Antunes Filho, José Celso Martinez Corrêa, Marília Pêra, Antônio Abujamra, entre outros.
A fonte inspiradora do livro, a atriz Fernanda Montenegro, foi considerada também a diva do combate pela preservação da memória do teatro nacional. Os outros 804 teatros são listados de forma concisa inserindo dados como o ano da inauguração, tipo de palco, nome dos proprietários, endereço, telefone, fax, e e-mail.
O autor realiza uma conexão entre o passado glamuroso dos rococós e as linhas retas que dominam as atuais edificações. O livro abrange desde os locais alternativos até os mais requintados teatros modernos, sem esquecer dos teatros em estilo barroco com suas platéias hierarquizadas. Vale destacar o mais antigo teatro em atividade na América do Sul, o Teatro Municipal de Ouro Preto (MG), erguido em 1770, o suntuoso Teatro Amazonas (1896), O Teatro São João (1876), na Lapa (PR) o recentíssimo Teatro Abril (2001), os Municipais do Rio de Janeiro (1909) e São Paulo (1911), sem esquecer do Cine-Teatro Ouro Verde (1952), de Londrina.
Na escassa publicação sobre teatros no Brasil, o livro de Serroni surge como uma obra referencial, seja pela esmerada qualidade editorial, ou pelo cuidadoso levantamento antropológico das casas de teatro no País, de todos os estados brasileiros.
Nesse trabalho de antropologia teatral, o autor percorre dois séculos de história do Brasil via salas de espetáculos, inserindo o contexto histórico da época da construção de cada um dos 88 teatros. A introdução da obra funciona como uma aula de teatro ministrada por um arquiteto cênico. A lucidez e conhecimento ao falar sobre as incoerências nos projetos arquitetônicos dos espaços cênicos no País revela J. C. Serroni um dos maiores consultores do setor. ''Teatro para a palavra, para o drama, deve ser mais íntimo'', ensina.
Alguns teatros nasceram da obstinação de figuras importantes do teatro, como o jornalista e dramaturgo Arthur Azevedo, que lutou pela construção do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Já em Fortaleza foi a iniciativa popular que impulsionou a construção do edifício majestoso. Outro aspecto presente diz respeito à batalha pela preservação e restauração dos espaços teatrais. O caso do Teatro Amazonas, a imponente construção de Manaus, é exemplar, nesse sentido. A casa voltou novamente a ser centro de difusão cultural depois de ter sido salva da deterioração e da ruína.
Serviço: ''Teatros: Uma Memória do Espaço Cênico no Brasil'', de J. C. Serroni, Editora: Senac São Paulo, 360 páginas, R$ 90,00. Patrocínio: BrasilTelecom.
Leia entrevista com J.C. Serroni na página 3


