TEATRO Um espetáculo cheio de mistérios
PUBLICAÇÃO
sábado, 22 de março de 2003
Katia Michelle Pires<br> Equipe da Folha 
Curitiba ''É uma experiência única, muito parecida com teatro e que nunca foi encenada antes.'' Assim o ator e diretor Amauri Tangará, natural de Paranavaí, mas radicado em Mato Grosso há mais de 30 anos, define o espetáculo ''Belarmino e o Guardador de Ossos'', que entra em cartaz a partir de hoje no Festival de Teatro de Curitiba. A montagem estreou em Chapada dos Guimarães (MT) em outubro do ano passado num espaço semelhante ao que será utilizado em Curitiba, ao ar livre, mas distinto por causa da vegetação. No festival, ''Belarmino'' acontece na Fazenda Imbuía Velha dos Couros, um lugar que até então ninguém tinha ouvido falar.
O diretor explica: ''É isso mesmo, a peça se passa num lugar onde nem Deus vai'', brinca. Ele dá poucas explicações sobre a localização no espaço e ressalta que a surpresa faz parte da cena. O público, limitado a 100 pessoas por apresentação, será levado para o local em um ônibus que sai do Centro de Curitiba. Antes disso, ninguém vai poder saber para onde está indo. E não vale tentar burlar a segurança, pois a organização do festival também mantém segredo sobre o espaço.
''É um lugar que tem muitos jacarés, uma espécie de brejo'', adianta o diretor, brincando, é claro. A história se passa num local semelhante ao cenário escolhido e, para Tangará, transportar a história para um teatro convencional significaria perder boa parte da essência do espetáculo. O espetáculo conta a história de um caçador de jacarés que decide parar de matar os animais. Por obra do destino acaba ele mesmo virando um jacaré e passa a devorar os caçadores que tentam matar os seus atuais colegas. Surpreso? Não se preocupe, se você for um candidato a espectador, o inesperado vai fazer parte de todo o script da encenação, a começar pelo local da encenação.
''Belarmino'' é uma adaptação do próprio diretor para a peça ''Banzo'', de Ricardo Guilherme Dicke. O autor, contemporâneo de Jorge Amado, vive meio recluso em Mato Grosso e apesar de ter dezenas de livros escritos nunca caiu nas graças do mercado editorial. Tangará e Dicke são amigos antigos. Da amizade e a admiração do ator e diretor pela obra do escritor mato-grossense, nascido em Chapada dos Guimarães nos anos 30, nasceu o pedido para que Dicke escrevesse um espetáculo para o teatro. Surgiu ''Banzo''. ''Só que era um texto muito denso, um monólogo que eu não consegui dominar'', conta Tangará.
Com algumas adaptações do texto original ele trasnformou ''Banzo'' em ''Belarmino e o Guardador de Ossos'' que traz três atores em cena (Renan Dimuriez, Romeu Benedicto e Tati Mendes). A temporada do espetáculo em Chapada rendeu convite do diretor Gerald Thomas para que a peça fosse apresentada na Alemanha. Depois do festival, o elenco segue para Portugal e só então atende ao convite de Thomas e segue para Europa.
Todo esse reconhecimento é resultado de um trabalho de quase quatro décadas de carreira do ator e diretor. Ele começou a atuar ainda no início da adolescência, em Londrina. Aos 20 anos foi para o Mato Grosso e se apropriou da cultura local para as suas montagens. Essa é a primeira vez que ele vem ao FTC, mas esteve no Festival Internacional de Londrina (Filo) com duas peças que integram o seu repertório (''A dança dos Tangarás'', em 1984 e ''Cafundó: onde o vento faz a curva, em 1994''). Além do teatro, Tangará ainda incursiona pelo cinema e aguarda a captação de recursos para começar a rodar o longa ''Madona dos Panamás'', um romance que também se passa no pantanal mato-grossense.
''Belarmino e o Guardador de Ossos'' é o espetáculo que mais tempo fica em cartaz durante o FTC. Acontece de hoje até o dia 30, último dia do evento.
SERVIÇO
''Belarmino e o Guardador de Ossos'', hoje às 21h30 e a partir de amanhã, até o dia 30, às 20 horas, na Fazenda Imbuia Velha do Rio dos Couros, dentro da programação do 12º Festival de Teatro de Curitiba. Ônibus saem da frente do Palácio Iguaçu. Ingressos a R$ 20,00 e R$ 10,00.
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