TEATRO TEMPERADO COM HUMOR
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sexta-feira, 18 de maio de 2001
Francelino França De Londrina 
O Festival Internacional de Londrina traz hoje e amanhã o Grupo Galpão, que apresenta no Cine-Teatro Ouro Verde o arrebatador espetáculo musical Um Trem Chamado Desejo, sucesso desde a estréia em novembro do ano passado. A 13ª montagem do grupo mineiro foi apresentada com estrondosa repercussão no Festival de Teatro de Curitiba deste ano.
Pela segunda vez, a trupe pisa em terra roxa. Em 1989, trouxe o espetáculo de rua Corra Enquanto é Tempo. O Galpão já riscou o mapa mundi levando a arte brasileira aos palcos da Alemanha, Colômbia, Inglaterra, Venezuela, Itália, Peru, Uruguai, Chile, Portugal, Costa Rica, Canadá, Holanda, além de inumeráveis cidades brasileiras.
Agora nesse espetáculo, o dramaturgo Luís Alberto de Abreu ambientou na pacata e conservadora Belo Horizonte uma reverência apaixonada ao ofício do ator. A Cia. Alcantil das Alterosas sobrevive a duras penas do teatro, sufocada pela emergência do cinema, que arrebatava as platéias. Numa luta ingrata para levar adiante as revistas teatrais, a Cia. se rende à magia do cinema. Todo pontuado com músicas compostas por Tim Rescala, a dramaturgia de Abreu ganha fôlego ao apresentar a fórmula brasileira de se sobrepor às desgraças: o bom humor embalado à boa música. O trem presente no título pode ser traduzido como a força interior que impulsiona o artista em direção a seus sonhos e desejos.
A comédia musical ultrapassa o simples desnudar do ofício do ator, ao mostrar o que existe por trás da mágica. Um Trem... ganha as platéias por apresentar situações de vida que são universais, como o desejo de ascenção. A peça recupera o itinerário do ofício do ator, desnudando os bastidores de uma arte estabelecida na magia, mas mostra um lado real e concreto como em qualquer outra profissão. Existem situações de nossa vida que estão aí, não partimos de problemas pessoais, mas de certa forma existe uma purgação no espetáculo, sintetiza o ator Eduardo Moreira. Já Pelúcio argumenta: A diferença entre o divã do analista e a nossa peça é que falamos da gente com uma visão distanciada. Essa é a visão poética e lúdica do próprio ofício.
A montagem de Um Trem.... chegou num momento em que o grupo finca raízes na comunidade de Belo Horizonte, com a criação do Centro de Pesquisas Galpão. O local estabelecido sob os preceitos do trabalho colaborativo, como define Pelúcio, é uma tentativa de estruturação do fazer teatral. Inspirado na Escola Livre de Teatro de Santo André (SP), o Centro Cultural do Galpão está erigido sob o tripé: ator, diretor e dramaturgo.
O oficinão trabalha com 20 atores com experiência que desenvolve uma pesquisa cênica específica, além de núcleos de dramaturgia e direção com a proposta da montagem de um espetáculo por ano. O Galpão integra o circuito Telemig-Celular com apresentações pulverizadas no interior de Minas Gerais. No próximo mês, participam do Festival do Porto, em Portugal, com outro sucesso inesquecível Romeu e Julieta. Uma referência de impacto levou recentemente o nome Galpão mais próximo do grande público. Na última sexta-feira santa, a Rede Globo exibiu o especial A Paixão Segundo Ouro Preto, uma adaptação do espetáculo do grupo A Rua da Amargura.
Com o imperdível Um Trem Chamado Desejo, os mineiros revelam porquê o grupo é uma referência para os artistas brasileiros. Com um elenco de primeira grandeza, uma direção segura e uma musicalidade envolvente, a comédia nos faz refletir sobre nossa capacidade de renascimento. O Galpão mostra o resultado de um trabalho comprometido com a pesquisa da linguagem cênica, que se renova a cada novo espetáculo e propicia a perenidade do repertório. Além disso, com um teatro que se propõe a estabelecer um vínculo direto com o público, o grupo discute modelos de brasilidade, sem resvalar no panfletário. A cada montagem, o Grupo Galpão reestabelece uma conexão com o teatro da antiguidade.


