Partindo da máxima de que ninguém é perfeito, é fácil concluir que todo mundo tem a sua deficiência. Pode ser física, psicológica, de humor, de comportamento. Mas cada indivíduo precisa lidar com características que não gostaria de ter e conviver com isso.
Em alguns casos, a deficiência é mais limitadora, como a surdez, a cegueira e alguns problemas mentais. Porém, ter mais restrições só significa ter um pouco mais a superar. É o que tem provado o grupo de cinco atores cegos da peça ''Olhares Guardados'', com estreia marcada para junho, no Festival Internacional de Teatro (Filo). O trabalho é uma continuidade do projeto Expressividade Cênica para Pessoas com Deficiência Visual, iniciado no próprio Filo em 2003, com o tem o apoio da divisão de Artes Cênicas da Casa de Cultura da UEL e da Associação dos Amigos da Educação e Cultura do Norte do Paraná (Àmen).
Sob o comando de Paulo Braz, os atores têm desenvolvido sua capacidade de interpretação e mesmo de criação, já que a peça está sendo montada em conjunto, do texto (inspirado nos autores Evgen Bavcar, Adauto Novaes e Maurice Materlinck) à cenografia. ''Também é uma forma de trabalhar a inclusão e a acessibilidade através da arte. O projeto capacita não levando em consideração a deficiência, mas a capacidade de interpretação'', explica o diretor.
Do elenco, Flávio Cordeiro, Sebastião Narciso e Tatiane Quadros já tinham atuado anteriormente na peça ''A Cidade e os Olhos'', também resultado do mesmo projeto. João Durval é DJ do Bar Valentino, e Marcos Santos apresenta-se regularmente nos bares da cidade. Ou seja, todos já tinham algum envolvimento com arte. ''A música e o teatro de certa forma têm semelhança. Porque eu também tenho que representar um pouco, principalmente quando canto'', compara Santos.
No palco, passarelas táteis ajudam os atores a se locomover em cena. Mas também todos os outros elementos da cenografia e da sonoplastia contribuem para a atuação. ''Os elementos são pensados de modo a guiá-los. O som da máquina de escrever, o flash da máquina fotográfica, o barulho do sino - tudo isso serve para orientá-los na movimentação em cena'', destaca Braz. ''Surgiu naturalmente um código entre nós. Um barulho que eu faço com a máquina de costura serve de deixa para outro ator começar a falar'', complementa Tatiane.
O enredo se desenvolve a partir de uma estação de trem, onde um fotógrafo chega para registrar o que encontra. Lá, ele vai entrar em contato com a costureira, o vendedor de antiguidades, o escritor e o músico. ''A peça tem um foco muito forte na questão dos olhos, fazendo toda uma reflexão sobre o olhar. Será que a gente enxerga realmente?'', suscita Braz.
A peça tem o mérito de não evidenciar a deficiência dos atores e também não tentar disfarçá-la. Embora esteja focada no olhar tanto dos personagens quanto do público, na montagem a cegueira não é nada além de uma simples característica física. Cabe ao público refletir sobre o que vê - ou seria sobre o que não tem enxergado?
''Nosso principal propósito é representar. Mas as pessoas vão refletir sobre a capacidade do incapaz, e ver que a cegueira é uma característica, uma diferença. O restante é potencialidade'', prevê Sebastião Narciso. ''A arte facilita a visualização da capacidade das pessoas'', acrescenta Flávio Cordeiro.
Embora o teatro seja uma boa forma de derrubar barreiras, dentro do grupo a palavra de ordem não é superação, mesmo porque a deficiência visual não é algo que se supere. A melhor definição para esse grupo é dedicação e perseverança. São pessoas que enfrentam suas dificuldades para poder fazer um bom trabalho. De tão habituados a lutar, ninguém ali fica usando as próprias deficiências como muleta para amparar um possível fracasso, como tanta gente considerada ''normal'' faz. ''Limitação e talento todo mundo tem'', resume João Durval. E, diante da força dessa trupe, não há limitação que resista.

mockup