''Não espero nem peço que se dê crédito à história sumamente extraordinária e, no entanto, bastante doméstica que vou narrar. Louco seria eu se esperasse tal coisa, tratando-se de um caso que os meus próprios sentidos se negam a aceitar. Não obstante, não estou louco e, com toda a certeza, não sonho. Mas amanhã posso morrer e, por isso, gostaria, hoje, de aliviar o meu espírito...''.
O texto do escritor norte-americano Edgard Allan Poe abre o conto policial ''O Gato Preto'', uma história de fatos e circunstâncias estranhas, que será levada ao palco em Londrina a partir de hoje. Com adaptação para o teatro feita por Carla Dyacov, o texto será encenado no espetáculo ''K157/2000 Projeto Gato'', que estréia às 22 horas, no Teatro T.O.U. O nome do espetáculo é uma relação da montagem com o número do projeto apresentado à Lei Municipal de Incentivo à Cultura (157/2000), o nome do conto ''O Gato Preto'' e a numerologia (K).
Na adaptação do conto policial, Carla Dyacov transformou o texto em narrativa para três personagens, interpretados por Flávio Pistori (o Homem), Camila Fontes (a Mulher) e pela própria Carla (o Gato). Na história, um homem de caráter dócil é casado com uma atraente e fiel mulher. O casal é apegado a pequenos animais, em especial ao seu gato preto. Por circunstâncias estranhas, o temperamento do homem passa a mudar. Ele se torna taciturno, irritadiço e indiferente aos sentimentos dos outros.
Uma série de ocorrências marca a vida do casal. O homem arranca um dos olhos do gato. Como se não bastasse, enforca o bichano numa árvore. Tempos depois, arruma outro gato de estimação, mas a irritação anterior não demora a voltar. Certo dia, ao descer uma escada, o gato passa entre suas pernas e o faz rolar escada abaixo. Foi o suficiente para que o homem pegasse uma machadinha para acertar o animal. Mas a mulher o segurou. Furioso, ele cravou a machadinha na cabeça da esposa. Carla Dyacov conta que o texto enfoca a linha tênue que distingue o homem comum de um assassino. ''O gato é a chave de todas as paranóias do homem'', explica.
Para acentuar o ambiente do gênero policial-terror, o espetáculo concentra uma série de elementos cênicos característicos. O cenário, montado no fundo de um barracão de 210 metros quadrados, é uma casa em reforma. O público é convidado a entrar no teatro ao som da música ''Close To Me'', da banda The Cure. Considerado parte essencial do espetáculo, o espectador posiciona-se no meio do cenário, para que possa interagir com os personagens.
Sem luzes especiais de teatro, o local tem apenas luminárias, lâmpadas, pequenos refletores, velas e lanternas, que por sinal se apagam várias vezes no decorrer do espetáculo. Os ruídos e um cheiro característico ajudam a colocar o espectador no clima mórbido da montagem (profissionais da Zona do Aroma pesquisaram um cheiro específico para a ocasião).
A trilha sonora foi elaborada por Luciano Silva, que usou o blues para criar vinhetas baseadas em filmes de terror. Carla Dyacov também trabalhou com imagens, usando aparições dos personagens em cantos distintos do cenário. ''Nos fixamos na idéia de os personagens estarem se descobrindo mortos. Por isso usamos tudo muito escuro, opaco. Os figurinos têm um acabamento mal feito e os atores andam descalços sobre as pedrinhas e a parafina no chão'', relata.
Desde junho, os três atores vêm trabalhando na montagem, que tem 40 minutos de duração. A experiência, agora, depende do público. ''K157/2000 Projeto Gato'' será a última montagem apresentada este ano no Teatro T.O.U. O funcionamento do espaço, inaugurado este ano por Camila Fontes e Carla Dyacov, depende da aprovação de um projeto apresentado à Lei Municipal de Incentivo à Cultura.
A idéia é fazer a manutenção do teatro, que pode ser mais uma alternativa à falta de espaços culturais na cidade. ''O T.O.U. pode ajudar a suprir a falta de locais para apresentações em Londrina. Vamos abrir para grupos e interessados'', diz Carla. A manutenção do espaço até o final da temporada será coberta com a arrecadação da bilheteria.
•''K157/2000 Projeto Gato'', espetáculo com Carla Dyacov, Camila Fontes e Flávio Pistori. Estréia: hoje, às 22 horas, no Teatro T.O.U. (Rua Rio Grande do Sul, 75), em Londrina. Prossegue até 16 de dezembro, de quinta a domingo. Texto: Edgard Allan Poe. Direção, adaptação, iluminação, cenário, figurino e maquiagem: Carla Dyacov. Trilha sonora: Luciano Silva. Produção: Camila Fontes. Cenotécnica, operação de som e luz: Erick Barbosa da Silva. Ingressos: R$ 10,00 (R$ 5,00 para estudantes e R$ 8,00 com bônus). Patrocínio: Lei Municipal de Incentivo à Cultura, Caixa Econômica, InterStation e Farm Shopping.

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