Dono de uma sensibilidade única para trabalhar com idosos na área teatral, o diretor de teatro João Henrique Bernardi, 46 anos, carinhosamente conhecido como "Rique", se tornou referência no assunto ao criar a Casa das Fases há 27 anos e levar a sua arte também para o exterior – foram sete turnês à Europa.
Morto ontem de manhã, vítima de câncer, ele deixa um legado admirável e que merece continuidade. O artista estava internado desde a última quarta-feira no Hospital do Câncer, onde não resistiu após cirurgia de biópsia para avaliação de metástase no pulmão. O sepultamento foi realizado ontem, às 17 horas, no Cemitério São Pedro.
A única irmã do artista, Lucia Maria Bernardi, contou que há 12 anos ele lutava contra um câncer linfático. Nos últimos meses uma tosse persistente e muito cansaço o levaram a procurar uma nova avaliação médica, onde foram constatadas as complicações de saúde. "Os médicos já tinham nos alertado da gravidade e, de certa forma, já estávamos preparados. Fica uma saudade imensa", afirmou, bastante abalada. Sua mãe, Clarice Nobile Bernardi, 82 anos, morava com Bernardi e estava inconsolável. "Tudo é muito triste e esse é o segundo filho que a minha mãe perde. O primeiro foi em 1964, vítima de leucemia", lamentou a irmã.
A aposentada Alexandrina Freire Prestes Lessa, 85 anos, integra o grupo de teatro da Casa das Fases desde 1999 e não esquece a primeira apresentação no exterior, na Alemanha, com a montagem "Londrina Zona Paraíso". "Ele sempre nos ensinou a fazer o nosso melhor para valorizar a nossa interpretação. Fazia um trabalho admirável e acredito que ficaria feliz se a gente continuasse", afirmou.
Para hoje, às 15 horas, estava prevista a estreia da montagem "Lampião e Maria Bonita", que seria encenada no Centro de Convivência do Idoso da zona oeste, onde desde o começo do ano estava sendo realizada uma oficina teatral com idosos. A peça foi inspirada no depoimento da aposentada pernambucana Maria Soares de Jesus, 78 anos, cuja mãe foi cozinheira e lavadeira do famoso cangaceiro. "Tive a oportunidade de contar essa história para o João Henrique e estava feliz em ver o resultado da montagem", contou, durante o velório.
A personagem Maria Bonita seria interpretada pela professora aposentada Vilma Dolcimascolo Valério, 64 anos, que desde março vinha uma vez por semana de Lupionópolis para participar do grupo. "Era um sonho de vida poder fazer teatro e aprendi muito com ele", comentou.
Uma das integrantes mais antigas do grupo, Carmem Mattos, 82 anos, também estava bastante abalada e resumiu sua admiração pelo trabalho do artista: "Ele foi uma luz que abriu o meu caminho para o teatro. Eu só tenho que agradecer por tudo que fez por mim e lembrar que a vida continua e que o tempo todo devemos agradecer por todas as coisas boas que estão ao nosso redor".

Legado de vida
Amigo do artista há mais de 30 anos, Devanil Girotto atuou como diretor assistente durante o último trabalho no Centro de Convivência do Idoso e pretende dar continuidade ao trabalho teatral feito com idosos. "Ele desenvolveu uma metodologia de trabalho com a terceira idade que serve de inspiração para todos. Ele deixa uma grande legado de amizade e reconhecimento", destacou.
Ele também informou que Bernardi pretendia lançar no ano que vem um livro sobre a trajetória do seu trabalho, com recursos do Ministério de Cultura, o que agora deverá ser organizado por Fabrício Borges, que há dez anos trabalhava com Bernardi.

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