Teatro para transformar a realidade
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sábado, 18 de junho de 2005
Liliana Onozato<br> Reportagem Local 
Coreografias, cantos e outras formas de expressão do corpo. Não simplesmente uma alterntiva de aparar as arestas de condições de vida e universo pessoal. ''O Ser Que Vive O Sonho de Uma Realidade como Utopia'' foi a peça bilíngue encenada, na quinta-feira à tarde, por nove internos da Penitenciária Estadual de Londrina PEL, que também integram o Grupo Franco Brasil. A apresentação foi o resultado do projeto de ensino da língua francesa e teatro, desenvolvido em 2004 pela atriz e diretora de teatro na França, Elisabeth Gonçalves, em parceria com a ONG Círculo das Artes, Aliança Francesa, FILO e a PEL.
O pátio da penitenciária serviu de palco para a instalação, onde os atores circulavam à vontade entre o público presente. Vozes e violão se apresentaram como únicos no início da peça. Depois, com os internos em cena, figurino alinhado, pés descalços e palavras de amor e indignação soltas no ar. ''Difícil é o vazio de mim mesmo. Difícil não poder amar'', declamou um dos atores.
''O teatro não é algo particular de um país, mas sim universal. A penitenciária é um lugar que tem muito a dizer'', comentou a diretora artística Elisabeth Gonçalves. Segundo ela, o intuito principal foi elaborar um projeto no qual pudesse estar presente o processo completo de criação teatral. ''Temos que considerar que o teatro não é só a apresentação; ele começa a partir do momento em que você coloca a caneta no papel para dizer algo'', disse Elisabeth que ensaia o grupo há cerca de um mês.
Uma penitenciária nunca foi algo que atraísse Elisabeth Dei Ricardi, diretora pedagógica do projeto.''O que me trouxe aqui foi a arte, através do FILO. Quando terminamos o projeto no ano passado, eles (os internos) me pediram para continuar; foi quando tudo começou. Você não pode dizer 'não' a um ser humano que pede 'por favor, eu quero aprender', e foi pelo Francês que eles me pediram'', revelou Elisabeth. Partindo do princípio que uma penitenciária não é o local apropriado para aprender, ela comentou da necessidade de uma nova pedagogia. ''Tivemos que adaptar. As aulas são realizadas dentro do refeitório, e neste contexto eles conseguiram aprender'', disse a diretora pedagógica. Para ela, o grupo está preparado para reintegrar a sociedade com novas ferramentas. ''Eu acredito nisso. O ser humano que chega ao ponto de se apresentar com esse grau de profissionalismo, está pronto'', finalizou Elisabeth.
De acordo com Raimundo Hiroshi Kitanishi, diretor da PEL, o resultado da apresentação no pátio da penitenciária é ''um dos caminhos que está escrito na Lei de Execução Penal''. ''Não estamos fazendo nada além do que a lei diz'', concluiu Kitanish.
Caminhando um pouco além da execução da lei, a emoção transparece nas palavras de Jonas Batista da Silva, interno que participou da encenação. ''Momentos como este são inéditos na vida da gente que, num passado não muito distante, não tínhamos essa perspectiva de vivenciar. E de repente, num lugar nada agradável, a gente descobriu meios de transformar essa realidade'', declarou Silva, que acredita na recuperação por meio da cultura.


