São Paulo, 03 (AE) - O evento "Leituras do Corpo Japonês", que estreou hoje com obras inéditas de artistas brasileiros que pesquisam a estética japonesa, prossegue amanhã no Teatro do Sesc Pompéia, em São Paulo, com o workshop da atriz de teatro nô Rebecca Teele Ogamo, pela primeira vez no Brasil. À noite, ela apresenta o shimai (solo de dança) da peça nô "Hagoromo" ("O Manto de Plumas").
Nô é o teatro clássico japonês concebido entre os séculos 14 e 15. A partir do começo do século 20, passou a exercer grande fascínio no Ocidente, especialmente entre diretores de teatro em busca de novas dramaturgias para o corpo do ator, como Peter Brook, Robert Wilson e Eugênio Barba. "Hagoromo tem imagens universais", explica Rebecca. "O anjo, que é o personagem principal Tennin, é puro, inocente, mas também sagaz e atraído pelas belezas da Terra", conta. "A peça tem uma mensagem bonita, oferece votos de amor, compaixão e compreensão; por isso, além de testemunhar a história, o público recebe essas graças."
A atriz escolheu uma das obras de Motokiyo Zeami (1363-1443), do repertório nô, que já começa a ter vida própria no Brasil. Em 93, foi recriada poeticamente por Haroldo de Campos e publicada pela Estação Liberdade. Logo depois, foi encenada sob a direção de Alice K., que também interpretou a heroína Tennin, usando no lugar do seu tradicional manto de plumas um protótipo do parangolé de Hélio Oiticica.
Rebecca é uma das poucas estrangeiras reconhecidas pela comunidade nô de Kyoto, o que lhe valeu como homenagem o nome Ogamo, embora tenha nascido no Michigan. O tempo conta a seu favor. Há 20 anos estuda o nô e a confecção de máscaras da escola Kongô com o mestre Udaka Michishige. Em 80, recebeu autorização para ensinar, criando um programa para ocidentais, mais tarde transformado no Instituto Internacional de Nô. Lá, reúnem-se artistas de vários países do mundo para treinamento. "Estudantes e pesquisadores de diferentes culturas encontram semelhanças e diferenças entre o nô e as formas de teatro que já conhecem", observa ela. "As histórias e as emoções são muitas vezes similares, até mesmo algumas técnicas de voz."
Mas o que surpreende e demanda mais trabalho do que o esperado é a simplicidade dos gestos, a gama de possibilidades de velocidade (muito lenta ou super-rápida), a imaginação do artista e a dependência do coro. Muitos ficam frustrados com o foco necessário à concentração e o controle dos gestos simples. Mas o entendimento cresce na medida em que visualizam a grande possibilidade de expressão que o movimento econômico e abstrato pode oferecer. "Há um encantamento e uma segurança envolvidos em uma tradição teatral de muitos séculos."
"Leituras do Corpo Japonês". Amanhã, às 15 horas, workshop somente para profissionais com Rebecca Teele Ogamo. Grátis. Sesc Pompéia Teatro. Rua Clélia, 93, tel. (011) 3871-7700.

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