Os integrantes do assentamento Dorcelina Folador (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra), em Arapongas (a 37 km a oeste de Londrina), convivem com uma rotina diferente desde que a diretora mineira Bya Braga aportou no local para dar uma oficina de teatro. As 94 famílias moradoras do local, pela segunda vez, mantêm contato com os Projetos de Maio, do Festival Internacional de Teatro (Filo), cuja proposta básica é a formação de agentes culturais.
O emblemático movimento integrou ao trabalho da terra Bertold Brecht, Guimarães Rosa e fragmentos de histórias de vida dos 19 novos atores. A proposta se consolida ao levar o teatro como arte popular coletiva. O grupo teatral formado por Bya Braga se caracteriza por aglutinar diferentes gerações. Com isso, visões de mundo distintas comungam com a proposta de inserção social através do teatro. A Folha2 acompanhou nessa semana um dia de ensaio do grupo no assentamento e constatou que a prática teatral interferiu de forma contundente na relação das pessoas com o mundo.
Num galpão espaçoso o grupo se prepara. Colchonetes são espalhados no chão e cortinas são improvisadas servindo de coxias. Bya Braga trabalhou conjuntamente com Adriano Moraes, de Londrina, que comandava os ensaios na ausência da diretora. O início do trabalho se deu com exercícios e jogos, preparando o grupo para a precisão cênica. Entre outras solicitações, a observação e imitação do outro foram realizadas sistematicamente. A preparação consumiu 20 dias de treinamento energético e técnico, para que posteriormente os ensaios pudessem memorizar as cenas.
Para a professora – como preferem os atores – a representação do cotidiano não pode protagonizar a atuação cênica, mesmo numa proposta realista. Num agrupamento em que a faixa etária cobre dos 11 aos 56 anos, num mesmo espaço convivem a ansiedade do adolescente e o ritmo compassado do homem maduro. Os sotaques e o vocabulário também são múltiplos e não há distinção entre o letrado e o não-alfabetizado.
Depois de lavrar o terreno para a dramaturgia, foram semeados excertos do texto do alemão Bertold Brecht – ‘‘A Padaria’’ – e a prosa de Guimarães Rosa – ‘‘Pirlimpsiquice’’– do livro ‘‘Pequenas Estórias’’. A proposta de selar Brecht, Guimarães Rosa e o MST encurtou distâncias entre a cultura popular e a cultura de elite. Se como integrantes de um movimento social de repercussão internacional eles desempenham um papel social de relevância, com o teatro eles começaram a entender o papel social do ator.
‘‘O teatro é uma porta para se criar um diálogo com a sociedade’’, advoga Bya Braga. A escolha pelo texto brechtniano está intrinsicamente ligada à luta pelo pão empreendida pela comunidade Dorcelina Folador. No roteiro final, o peixe grande engole o peixe pequeno, quando falam da exploração. São questionados conceitos de felicidade e injustiça social.
Com um grupo tão heterogêneo, a diretora procura as palavras certas para atingir a disciplina em cena, consolidando o sentimento do coletivo numa outra dimensão. A prática teatral derrubou preconceitos cristalizados. Durante os ensaios, percebe-se pela organização do grupo a disponibilidade em participar do projeto. Um dos motivos é poder repassar as informações adiante. ‘‘Precisamos dar continuidade ao trabalho, aproveitando ao máximo e passar para os outros o que a gente aprende’’, afirma Vânia de Paula Camargus, 16 anos, integrante do grupo. Para ela, o conhecimento compartilhado pode ajudar no desenvolvimento do assentamento.
A linha divisória da presença do teatro em sua vida é bastante nítida. Para ela, o contato com o universo enriquecedor da literatura dramatúrgica e o relacionamento com pessoas com outra sintonia fizeram com que a programação da tevê, por exemplo, se tornasse desinteressante. ‘‘Não tem mais graça’’, diz. ‘‘O importante é ter gente ensinando coisas novas’’, prossegue.
Do universo cultural dos atores foram retirados elementos para sedimentar a proposta, como a música de viola. Por isso a inclusão da música ‘‘O Azar é Festa’’, imortalizada na voz de Mazzaropi, o eterno Jeca Tatu. Foram informações pinçadas no inconsciente coletivo. ‘‘É preciso acordar a memória cultural dessas pessoas’’, acredita Bya Braga. No assentamento acontece aos sábados pela manhã e nas noites de festa a ‘‘mística’’, uma dramatização das notícias e fatos da semana fora e dentro dos limites da comunidade. Essa é uma forma de entender teatro, fazendo decantar o que há de mais puro e espontâneo. Para alguns, a ‘‘mística’’ é um tesouro para os antropólogos se debruçarem.
O estudante Ivan Gonçalves Borges já teoriza sobre o trabalho: ‘‘teatro não é a pessoa treinar o papel e se apresentar. Tem de se preparar. É mais complicado do que eu imaginava, mas é mais gostoso’’. Para ele, os ensaios atacaram diretamente sua timidez. Recluso, ele nem saía de casa antes da criação do grupo.
A prática de avaliação de um trabalho, como acontece após os ensaios teatrais, colocam os integrantes diante de novos posicionamentos. Isso reflete fora dos ensaios. A lavradora Juracema de Oliveira Pilatti está plantando feijão e aguardando as chuvas para iniciar o plantio de batatas. Participa do grupo teatral e no sol a pino, enquanto lavra a terra, germina pensamentos sobre o fazer teatral. ‘‘Na minha imaginação teatro era coisa de grã-fino. Não achei que nós, pessoas simples, pudéssemos fazer teatro’’, revela Juracema, que contracena com o marido, a filha e o neto.
Um dos primeiros reflexos de integrar uma trupe teatral atingiu a auto-estima de Juracema, que se sente revigorada fisicamente, capaz de acompanhar a ala jovem do grupo. ‘‘Achei que não conseguiria me movimentar. Teatro é bom para a saúde mental e física’’, constata. Para ela, fazer teatro mostrou o quanto todos são capazes. Durante os ensaios, a avó do grupo realizou uma imitação de galinha. ‘‘É bom ser galinha, a gente se diverte’’, diz sorrindo.
A estréia da peça deixa um rastro de ansiedade no grupo, pois será apresentada durante a Mostra Internacional, no Filo, que acontece entre 19 e 31 de maio, em Londrina. A inserção de uma prática social inquisidora, desafiante e que amplia os canais deixará sementes. Esse pelo menos é o anseio de todos, com o grupo se apresentando em outros assentamentos. A inteireza dos integrantes do grupo teatral com o projeto é reflexo da fome insaciável pelo aprendizado de toda a comunidade, seja na alfabetização de adultos ou na consciência dos jovens e crianças sobre a importância de se frequentar a escola.

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