Francelino França
De Londrina
O teatro floresce timidamente nos domínios escolares. São inúmeras as razões dessa aridez da arte dramática nas escolas de ensino médio e fundamental, mas pode-se apontar a falta de professores habilitados para fomentar o teatro como uma das principais causas. Na formação do professor essa lacuna é visível. Grande parte desconhece as ferramentas necessárias para que aconteça o jogo teatral em sala de aula. Os teóricos definem jogo teatral como uma forma de ensaio, pontuado pelo envolvimento, improviso e algumas regras definidas pelo grupo.
Outro fator importante que impede que o teatro germine é a pouca valorização da literatura dramática. Os grandes dramaturgos são exilados dos currículos escolares, diferentemente do que ocorre na Inglaterra. Somando-se a isso, o estudo sistematizado da linguagem teatral é escasso.
Com tantas barreiras impedindo que a arte dramática se descortine nas escolas de ensino médio e fundamental, o desenvolvimento de atividades de trabalho originais, estabelecidas dentro de parâmetros criativos, acabam abafadas. Essa lacuna da prática teatral nos bancos escolares, certamente, se reflete nas platéias reduzidas nas salas de espetáculos. Um contato restrito nessa área quando estudante, no futuro inviabiliza a presença deste estudante como público pagante no teatro.
Pode-se agregar outros motivos a essa ausência da prática teatral, como os estabelecimentos de ensino de linha conservadora, que dificultam o acesso à linguagem expressiva. De certa forma, é um temor ao exercício da liberdade. Desconsidera-se que soluções são encontradas para os problemas das escolas através do jogo teatral, do jogo simbólico. É fato. Uma montagem que faça parte do processo de aprendizagem do aluno, certamente acabará fazendo parte da história de vida dele.
Para o professor do Curso de Artes Cênicas da Universidade Estadual de Londrina e mestrando em Teatro-Educação, Mauro Rodrigues, o fundamental é inserir o aluno no jogo teatral, sem necessariamente montar uma peça. ‘‘O professor está pulando uma etapa no processo educativo, quando pega diretamente o texto para montagem’’, considera. O ator é um investigador, quando se apodera de um texto pronto, há apenas a repetição do texto dramático. A constatação do professor é que não acontece teatro na educação, apenas reprodução de modelos.
Para ele, muitas escolas usam a montagem de uma peça apenas como marketing. ‘‘O resultado é importante se há um processo’’, alega. No jogo teatral, o aluno se torna sujeito de um papel social, por intermédio de um papel dramático. O jogo teatral propicia uma experiência orgânica. ‘‘Quando o aluno assume o papel dramático, ele se vê como agente social. O teatro é uma experiência que é educacional em si’’, argumenta.
Mauro aponta alguns caminhos para que a produção teatral nas escolas realmente se efetive. Prestar atenção no jogo que a própria criança desenvolve, porque segundo ele, não dá para separar o processo educacional do trato da vida. ‘‘Mapear o que a criança traz para escola. Os alunos precisam participar do processo de apropriação de linguagem, que passa pela visão de mundo e pelo trato da língua’’, ensina. Na concepção de Rodrigues, os professores desejosos de dinamizar e motivar seu grupo, precisam trabalhar o jogo de improvisação, que potencializa a espontaneidade e criatividade.
As soluções apontadas passam pela investigação e pesquisa teatral nas bibliotecas, entrevistas com quem faz teatro, assistir a peças e ir com mais frequência ao cinema. A experiência se dá como uma investigação científica. ‘‘No momento que o professor vai qualificando seu trabalho, vai ficando mais exigente’’, garante. Existe uma bibliografia elementar para teatro-educação (ver quadro nesta página), que pode dar um importante suporte aos professores interessados.
A partir de 1995, no Paraná, como aponta Rodrigues, torna-se perceptível um avanço na área de teatro-educação. Com a nova Lei de Diretrizes e Bases, em que o ensino da Arte está inserido nos conteúdos obrigatórios em todo o território nacional, espera-se que o teatro floresça. Para o professor de ensino fundamental interessado em teatro-educação, a primeira fase do trabalho é basicamente empírica, de registro de como os alunos observam e fazem a leitura do mundo. Um rico material pode emergir dessa etapa.
Numa segunda fase, passa-se para a estrutura da linguagem, com exercícios de composição, para depois mergulhar na criação do texto. Em todo o processo, é importante o trabalho de improvisação, jogos de aquecimento e integração entre os alunos-atores. Isso vai permitir um reconhecimento do grupo, do espaço onde vivem, da voz e do corpo.Escolas de ensino médio e fundamental podem ter o teatro como um aliado da educação, mas isto nem sempre acontece
ReproduçãoUma montagem teatral que se integre ao processo de aprendizagem pode se tornar parte da história de vida do aluno. Esse foi o caso da atriz Beth Coelho (à direita), que em 1976 subiu aos palcos como ‘‘Alice no País das Maravilhas’’Paulo WolfgangO professor Mauro Rodrigues afirma: ‘‘O teatro é uma experiência que é educacional em si’’

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