Curitiba Um público estimado em 100 mil pessoas assistiu às 750 apresentações entre Mostra Contemporânea e Fringe do 12º Festival de Teatro de Curitiba. Número que seria surpreendente se não fosse exatamente o mesmo divulgado no ano passado. O saldo desta edição, que encerra hoje, também não oferece maiores surpresas. O evento acaba mostrando o que acontece nos teatros brasileiros, mas revela que não há nada de novo no reino dos palcos. Sem maiores ousadias, o festival continua com o pé fincado na tradição.
As incansáveis quatro horas e quinze minutos do espetáculo ''Os sete afluentes do Rio Ota'' e a montagem irreverente única nesse quesito, aliás de''Amor e restos humanos'' do grupo mineiro Odeon Companhia de Teatro foram os dois destaques da Mostra Contemporânea desta edição.
Nenhuma das duas era genial. ''Os sete afluentes...'' tinha um elenco primoroso e uma direção corretíssima de Monique Gardemberg para o texto de Robert Lepage. Quase uma cópia da montagem americana, conforme a diretora mesmo afirmou, mas se sobressaiu pelo mérito de ter mantido o teatro lotado até as 3 horas da madrugada, horário de encerramento da primeira apresentação.
No segundo dia, quando o espetáculo acabou a uma da manhã, o teatro também estava lotado ao final, mesmo com algumas cenas para lá de arrastadas e a sensação de que a mesma montagem pudesse acontecer com pelo menos duas horas a menos. O que mostra uma extrema boa vontade da platéia.
''Amor e restos humanos'', apresentada no pouco conhecido Barracão da Faculdade de Artes do Paraná (FAP), ganhou pela coesão da proposta. Tudo parecia estar em seu lugar atores bons, cenário funcional, trilha sonora perfeitamente compatível , sem ar de improvisos como até os mais consagrados diretores e companhias demonstraram nesta edição do evento.
O FTC é o primeiro grande festival a ser realizado na agenda anual dos festivais nacionais e com isso tem a vantagem de revelar as próximas tendências a se ver no teatro. O que se percebe a partir desta edição, é que as companhias teatrais estão bem mais fortes do que em anos anteriores. Se o festival já chegou a apresentar recorde de monólogos numa única edição, situação que retratava a crise econômica do País, este ano o recorde foi de espetáculos realizados por grupos já formados.
Dos 18 espetáculos da Mostra Contemporânea, 11 eram de companhias que já conquistaram um certo reconhecimento na sua cidade de origem e desenvolvem um trabalho de pesquisa já há algum tempo. É o caso dos Parlapatões - Patifes e Paspalhões e da Cia. Elevador de Teatro Panorâmico, ambas de São Paulo; da Cia. Senhas de Teatro, de Curitiba e da própria Odeon, de Belo Horizonte, apenas para citar algumas.
O que não significa exatamente que o espetáculo apresentado será relevante, já que boas companhias decepcionaram. Formada por jovens atores, a Cia. Elevador de Teatro Panorâmico se mostrou completamente despreparada ao montar ''A hora que não sabíamos nada uns dos outros''. O crítico Alberto Guzik, que integra a comissão de seleção do festival, confessou que o enfadonho espetáculo tinha sido convidado para integrar os ''eventos especiais'' do festival, mas que um ruído na comunicação fez com que ele acabasse na Mostra Contemporânea. O ruído, certamente, abalou a credibilidade da mostra oficial.
Os Parlapatões, que há 12 anos desenvolvem um trabalho sério voltado à comédia, também não convenceram. O espetáculo ''As nuvens ou um deus chamado desejo'' apresentado pela trupe, estreou com ares de inopitado.
A grande polêmica do festival continua sendo o Fringe. A mostra paralela divide opiniões. Quase todos os críticos, atores e diretores que desembarcam em Curitiba nessa época do ano não cansam de afirmar que o Fringe ''oxigena'' o festival, mas as reclamações não cessam. Falta de critério na seleção dos espetáculos que faz muita gente perder tempo falta de apoio aos grupos, que deixa muitas companhias no prejuízo são algums exemplos das broncas relacionadas ao Fringe.
O empresário Vítor Aronis, da Calvin Entretenimento (empresa que organiza o festival) é categórico ao afirmar que não pretende mudar a organização do Fringe por causa disso. ''Queremos, sim, dar mais apoio técnico e de estrutura, mas não pensamos em ajuda de custo aos grupos que participam da mostra paralela, porque senão o festival não se viabiliza financeiramente'', diz.
Assim como o público, o orçamento do festival se manteve nessa edição: R$ 1,7 milhão. Assim como em outros anos também, Aronis afirma que não há lucro no evento. Das 100 mil pessoas que assistem à programação, menos da metade é público pagante.
E quem espera novidades para a próxima edição, é melhor sentar. Aronis não anuncia grandes mudanças, a não ser a possibilidade do evento acontecer na Semana Santa de 2004 para facilitar a permanência dos convidados. Promete também, mas com cautela, rever o local da abertura do festival. Só para lembrar que este ano novamente a abertura foi um fiasco, com os atores dividindo atenção com um espetáculo à parte, de chuvas e trovoadas, proporcionado por São Pedro. Que bons ventos venham para a próxima edição.

mockup