Rio, 28 (AE) - Teatro de bonecos ou desenho animado ao vivo? A dúvida sempre ocorre quando se fala do Teatro Desenhado de Praga, que estréia hoje no Teatro Carlos Gomes, no Rio, e se apresenta no Municipal de São Paulo de sexta a domingo. O espetáculo é "Miss TV", que usa uma técnica antiga para contar uma história absolutamente moderna. A partir da lanterna mágica, originária da China, o diretor Frantisek Kratochvil dá vida a objetos inanimados com o auxílio de dez jovens atores que manipulam os elementos cênicos e os fazem virar personagens.
"Essa técnica chegou no ocidente há muitos anos e só foi usada até agora por mágicos e ilusionistas, especialmente nos truques de levitação", explica Frantisek Kratochvil, que vem ao Brasil pela primeira vez . "Trouxemos a experiência deles para o teatro para contar uma história e levar uma mensagem para o público". "Miss TV" fala de um homem que se apaixona pelo aparelho de televisão, para o desespero de sua mulher. Quando surge um defeito, o aparelho é tratado como uma pessoa doente, que recebe remédios e faz até um eletrocardiograma.
"Com essa peça, eu quis mostrar às pessoas que a televisão tem coisas boas e ruins, mas é preciso cuidado porque ela pode se tornar um vício", adianta o diretor. "Temos dois atores em cena, mas os outros oito que ficam invisíveis trabalham tanto ou mais que eles". Os atores do Teatro Desenhado de Praga são extremamente jovens e bonitos. Kratochvil explica que eles tinham outras profissões antes, mas hoje dedicam-se exclusivamente ao trabalho do grupo, que tem a própria casa de espetáculos na capital checa, mas nunca teve financiamento do governo. "Nem no tempo do socialismo, sempre nos mantivemos por conta própria", ressalta ele. "Também não sofremos censura naquela época, porque um teatro sem palavras é mais difícil de ser controlado".
Apesar de existir há pouco tempo com o nome de Teatro Desenhado de Praga, o grupo foi criado em 1974, pelo diretor Jiri Snerc e pelo artista plástico Frantisek Kratochvil, com o nome de Teatro Negro de Praga. Eles já estiveram aqui em 1980, com "A Bicicleta Voadora", e em 1989, com "A Semana dos Sonhos". Quem viu vai lembrar-se do encantamento de ver os óculos que viravam uma bicicleta no palco ou as sapatilhas que se apaixonavam por botas de cano longo. Desde então, a técnica é a da lanterna mágica, que consiste em projetar sombras sobre objetos inaminados a fim de dar ao público a ilusão de que eles se movimentam.
Segundo Kratochvil, a inovação trazida por ele e Jiri Snerc foi fazer os objetos mudar de forma como num desenho animado, num aperfeiçoamento da técnica milenar dos chineses. "É um método que patenteamos e que difere de todos os outros espetáculos em que os atores são títeres", comenta o diretor. "Nossos atores são escolhidos em primeiro lugar pelo ouvido musical e, depois, pela habilidade manual para manipular os objetos". A juventude da atual equipe, segundo ele, é puro acaso. "Não é esse o critério de seleção de nossos elencos, mas é sempre bom conviver com pessoas jovens e bonitas".
Kratochvil acumula as funções de autor, diretor, cenógrafo e iluminador dos espetáculos, mas não insere seu trabalho nas artes cênicas. "Está muito mais para artes plásticas, pois há um movimento desenhado em cena", explica. "Em Miss TV, os atores não só contracenam com objetos, mas lhes dão vida e alma de acordo com a mensagem que queremos transmitir". Mesmo tendo teatro próprio em Praga, o grupo viaja constantemente pela Europa. "Sempre voltamos aos lugares onde nos apresentamos e, por isso, acho que nosso trabalho agrada a pessoas de várias culturas e línguas diferentes", acrescenta o diretor técnico do teatro, Michal Urban.
"Há um mês, estivemos em Bogotá e em Buenos Aires e, depois daqui, vamos para Recife, em Pernambuco". Além dos dois espetáculos, hoje e amanhã, no Teatro Carlos Gomes, no Rio, o Teatro Desenhado de Praga se apresenta quinta-feira na Lona Cultural de Campo Grande, na zona oeste da cidade, com entrada franca, para um público bem menos sofisticado que o das duas primeiras récitas. Essa diferença não preocupa os integrantes do grupo. "Estamos acostumados a nos apresentar em qualquer lugar, para todo tipo de público", conclui Michal Urban. "Nossa mensagem é tão clara que é facilmente entendida por todas as pessoas, de todas as idades e condições sociais".

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