Teatro capturado numa trama cerrada de palavras
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quinta-feira, 28 de outubro de 1999
por Beth Néspoli 
São Paulo, 29 (AE) - Até o fim do ano a editora Perspectiva lança no Brasil uma obra de referência fundamental para qualquer pessoa ligada ao teatro, cuja consulta sem sombra de dúvida vai deleitar desde o simples espectador interessado até ao especialista em crítica teatral. Trata-se de uma esmerada tradução brasileira para o Dicionário de Teatro, de autoria do francês Patrice Pavis, um dos mais modernos e abrangentes no gênero.
Segundo o editor e ensaísta J. Guinsburg, entre os méritos da obra está sua atualidade e a abordagem crítica na análise dos verbetes. "Trata-se de uma obra conceitual; o eixo da informação está centrado mais na pertinência estética do que na visão histórica, ainda que essa visão também esteja presente."
Para ressaltar a atualidade da obra, Guinsburg cita a inclusão de verbetes como happening e performance, entre outros, e o fato do autor já considerar em suas análises o recente impacto do teatro oriental sobre o ocidental. Curiosamente, enquanto alguns críticos e criadores ainda discutem se a body art deve ou ser enquandrada na categoria teatro, o autor não hesitou em incluir o verbete arte corporal no seu dicionário. "Arte corporal ou body art consiste em usar o próprio corpo para infligir-lhe sevícias de maneira a transgredir a fronteira entre o real e a simulação, a levar o público ou a polícia a reagir e a protestar contra guerras ou massacres", define a tradução brasileira em preparação.
O mérito da inclusão aumenta se levarmos em conta o fato de que volume assumidamente atém-se à arte teatral, ou seja, em nenhum momento se propõe a estender a análise a verbetes ligados às outras artes cênicas como circo, ópera ou dança a não ser na medida das apropriações teatrais dessas linguagens.
A observação do editor Guinsburg quanto à abordagem crítica dos significados pode ser percebida ainda no verbete "arte corporal". Entre outras observações, o autor faz referências históricas a artistas como Marinetti, Duchamp e ao movimento dadaísta até desembocar numa análise crítica, apontando um flerte da body art com aparências enganosas na representação da morte e do sofrimento.
"Encarado em seu conjunto (o dicionário) reprojeta em manifestações significativas toda a história do teatro - sem que a obra se proponha a tal intento - e, também o percurso e o debate do pensamento crítico sobre esta arte e as variantes de seu discurso", observa o texto do prefácio à edição brasileira assinado por Guinsburg e a professora e ensaísta Maria Lucia Pereira. Juntos eles dirigem a equipe que há dois anos vem trabalhando na tradução do volume formada pelos professores Rachel Araújo de Baptista Fuser, Eudymir Fraga e Nanci Fernandes. "Todos trabalham com teatro, seja diretamente ou no plano acadêmico e vêm realizando um trabalho exaustivo, insano e rigoroso de tradução e revisão", afirma Guinsburg. "Infelizmente não podemos ter uma equipe dedicada unicamente à essa tarefa, mas ainda assim vamos conseguir terminar até o fim do ano." São 672 verbetes distribuídos por oito grandes temas: Dramaturgia; Texto e Discurso; Ator e Personagem; Gêneros e Formas; Encenação; Princípios Estruturais e Questões de Estética; Recepção e Semiologia.
O tema dramaturgia, por exemplo, engloba 122 verbetes que vão desde termos clássicos indispensáveis num volume desse gênero - ato, crise, desenlace, intriga, incidente, parábola, peripécia, unidades, versosimilhança - até outros aparentemente bem mais prosaiscos como gag, nó e virada. Incluído no tópico Texto e Discurso, só a análise do verbete narrador ocupa três páginas, sem contar as remissões a outros verbetes.
Como observa Anne Ubersfeld no prefácio à edição francesa, "remissões e citações tecem uma trama tão cerrada que a armação lógica das teorias está presente em toda parte." Segunda ela ainda, pode-se extrair uma teoria de teatro seguindo essa trama. O teatro tem como característica a efemeridade. Só se realiza inteiramente no momento do espetáculo, na interação entre palco e platéia. Entre todos os seus signos, talvez por ser o de permanência mais fácil, a literatura dramática fundamenta a maior parte das teorias teatrais. Mais um ponto positivo para o Dicionário de Teatro de Pavis que valoriza todos os signos do espetáculo teatral. "E não só do espetáculo, mas de sua recepção", observa Guinsburg.


