A julgar pela concorrida pré-estréia, no início de dezembro, o grupo Boca de Baco tem tudo para fazer uma bem-sucedida temporada com o espetáculo ''Balada de um Poema'', a partir de hoje, em Londrina. A montagem, dirigida por Luiz Valcazaras, toca num tema incômodo de certa forma, mas que gera expectativas e consequentes reflexões: a loucura. E quem for à Usina Cultural, onde o espetáculo fica em cartaz até dia 15 de fevereiro, de sexta a domingo, às 21 horas, vai se confrontar com situações e personagens tão perturbadores quanto próximos da realidade. Sim, ''Balada de um Poema'' é sublime no nome e, no entanto, firma-se numa narrativa afiada capaz de arranhar conceitos de quem acredita ser a loucura o avesso total de sentimentos e coerências. O espetáculo, patrocinado pelo Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic), é recomendado para maiores de 16 anos.
''Balada de um Poema'' tem história fincada na década de 70, num hospital psiquiátrico. Lá, sete pacientes carregam o peso de seus dramas pessoais contados de forma resumida, mas rica em detalhes, por Glória, uma pesquisadora empenhada em se embrenhar nas muitas ramificações da mente humana. Ela intervém nas cenas e vai apresentando um a um dos confinados naquele ambiente sem muitas perspectivas de compreensão, já que todos são considerados loucos rótulo simplista e de grande aceitação popular.
Os internos: Assunção (gráfico que teve um surto após a perda de sua amada, Juliana, morta durante uma passeata estudantil contra a ditadura militar); Juca (interno há dois anos com o diagnóstico de psicopatia, resultado de um acidente de trânsito); Talita (que expandiu demais a mente numa das terapias alternativas a que se submeteu em nome da paz e do amor); Miguel (suas experiências ''místicas'' o levaram ao uso excessivo de drogas); Belinha (paciente esquizofrênica reclusa há 15 anos e que foi sucessivamente estuprada pelo pai que também a usava como forma de quitar dívidas contraídas em jogos); e Josefina (personagem enigmática que caberá ao público definir seu perfil).
Entre eles, encontra-se o arauto do devaneio conhecido por Assis, poeta. Foi jogado no manicômio por militares que interpretavam seus delírios poéticos como mensagem cifrada e, portanto, de alta periculosidade ao regime então vigente. Parte dele a proposta de uma revolução prontamente referendada pelos colegas: transformar aquele exílio de mentes num circo. Isso mesmo, num circo com picadeiro, serragem espalhada pelo chão e poltronas vermelhas onde o público vai se acomodar para assistir, durante quase 60 minutos, ao desenrolar de ''Balada de Um Poema''.
A aproximação entre público e atores foi a principal modificação feita pelo diretor Luiz Valcazaras, responsável pela concepção geral da montagem e também co-autor do texto juntamente com o jornalista Marcos Losnak. Na pré-estréia, o espetáculo foi encenado em palco italiano. Agora, ganha o formato de arena. ''Com isso, há uma noção maior de cumplicidade. E também estabelece-se um clima intimista que estava na concepção original'', diz Valcazaras. Por sessão, ''Balada de Um Poema'' pode receber até 90 pessoas.
Esse é o segundo trabalho que o diretor paulista realiza com o grupo Boca de Baco o anterior foi ''Fando e Lis'', em 2001. E mais uma vez Valcazaras trabalha com a loucura como tema como se esquecer do belíssimo trabalho feito por ele em ''Anjo Duro'', com Berta Zemmel, em 2000? ''Acho que todo artista sempre está numa linha tênue entre a loucura e sanidade, isso no sentido de vislumbre. Gosto deste tema porque me sinto muito próximo da minha história enquanto artista'', analisa. Para a montagem, ele convocou a competente Maria Fernanda Coelho para assistência de direção.
''Balada de um Poema'' teve como ponto de partida o poema ''Salas'', de Marcos Losnak que, através de uma discussão coletiva, indicou caminhos dramatúrgicos. Isso tudo dentro de um processo denominado Núcleo de Investigação Teatral (NIT), criado por Luiz Valcazaras há oito anos em São Paulo, e implantado em Londrina pelo grupo Boca de Baco, em 2002. ''Não considero o espetáculo como um resultado do NIT. Vejo com um degrau, um passo muito sério que o grupo está dando dentro desse processo'', analisa Valcazaras.
''Balada de um Poema'' causa um íntimo constrangimento por trazer à cena fatos (alguns verídicos, como a cena do casamento no hospício vivenciada por Valcazaras) e histórias de vida que muitos ainda insistem em não ver ou se vêem, ignoram como forma de defesa. A loucura, nesta montagem, deixa um rastro longo de reflexões através de personagens como Belinha, defendida com garra por Carla Dyacov. Ou Assunção, trazido à luz por Nivaldo Lino, que deixa o manicômio após sentimentos e ressentimentos aplacados. Ou mesmo Josefina (Viqui Gonzales) estaria nela concentrada a metáfora maior do espetáculo ou seria apenas mais uma doente mental?
Os perfis são bem definidos. Ao público caberá o julgamento do que vem a ser de fato realidade e/ou laivos de insanidade. A tarefa não é tão fácil como parece. Afinal, em todos os personagens há certos maneirismos ou meandros psicológicos que qualquer um pode encontrar na pessoa ao lado ou em si mesmo. Eis a questão.
®MDNM¯Serviço
- ''Balada de um Poema'', espetáculo com o grupo Boca de Baco. Estréia hoje, 21 horas, na Usina Cultural (Rua Duque de Caxias, 4159, esquina com a Rua São Salvador), em Londrina. Texto: Marcos Losnak e Luiz Valcazaras. Concepção geral e direção: Luiz Valcazaras. Assistente de direção: Maria Fernanda Coelho. Designer gráfico: Alexandre Makiolke e Eduardo Gouveia. Elenco: Nivaldo Lino (Assunção), Jackeline Seglin (Glória), Ricardo Gimenes (Assis), Carla Dyacov (Belinha), Viqui Gonzales (Josefina), Francisco Spisla (Juca), José Rockenbach (Miguel) e Elaine Brito (Talita). Ingressos:
R$ 10,00 (R$ 5,00 antecipado, estudantes ou terceira idade). Estacionamento no local a R$ 1,00 (entrada pela Rua São Salvador). Reservas pelo telefone (43) 9126-2225, com Elaine. O espetáculo é patrocinado pelo Promic e permanece em cartaz até dia 15 de fevereiro.

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