A pequena sala com 50 poltronas está cheia. Estudantes de artes cênicas, atores, professores, jornalistas. Com longos cabelos e barbas brancos, ele entra e se acomoda. Ou melhor, se incomoda. ''Isso aqui é tão... essas cadeiras. Não dá para tirar? E se vocês se levantassem. Isso! Assim... relaxem os ombros, estiquem os braços, o pescoço. Olhem para o Norte, o que temos aqui ao Sul... sintam a energia.... Venham mais pra cá, isso, saiam de trás das cadeiras. Flexionem os joelhos, agora mexam a cintura. Ótimo, agora tá legal. Se quiserem se sentar...''.
Como sempre, José Celso Martinez Correa não se mete em convenções. Não bastasse a vez que retirou todas as cadeiras do Teatro Municipal de São José do Rio Preto, ele agora tentou remover as poltronas da sala que abrigou, na última segunda-feira, o que seria uma mesa-redonda do Festival Internacional de Teatro. Depois de levar o público a uma concentração conjunta, aí sim, o diretor do Teatro Oficina Uzyna Uzona começou a conversa com a platéia. ''Quando tenho espetáculo, passo o dia em concentração, não costumo falar. Abri uma exceção. Por isso pedi que vocês entrassem na concentração''.
Zé Celso está de volta à cidade paulista para mostrar as quatro partes da adaptação de ''Os Sertões'', de Euclides da Cunha (1866-1909): ''A Terra'', com 3h30 de duração, ''O Homem I'' (cinco horas), ''O Homem II Da Re-volta ao Trans-homem'' (seis horas) e ''A Luta'' (três horas). Aliás, hoje acontece a estréia nacional (um ensaio) de ''A Luta'', trabalho que teve estréia mundial em maio, na Alemanha, e ainda terá mais ''três expedições'' até 2005.
Com os óculos pendurados no pescoço, Zé Celso não pára. Anda de lá pra cá na sala, gesticula, chama a atenção. Ele falou do Festival de Rio Preto, que já foi palco de algumas de suas produções e agora preparou um espaço especialmente para receber ''Os Sertões''. Na antiga fábrica da Swift, um complexo de barracões adaptado para o evento, o Teatro Oficina de São Paulo ganhou uma réplica. Toneladas de terra foram despejadas sobre o piso do barracão, que teve instalada até uma fonte igual a do espaço original. As arquibancadas verticais do Oficina também foram montadas no anfiteatro da Swift.
''Na Alemanha, o espetáculo foi mostrado dentro de uma fábrica de armamento. Aqui o espaço é muito diferente. Uma beleza que vai se construindo à medida que encarna o espaço'', disse.
Para Zé Celso, o Teatro Oficina é uma grande máquina de desejos. ''Lá temos vida e desejo, que é uma grande forma de poder. E para confrontar a máquina do poder, temos a máquina do tesão. Por isso o estado do teatro é um estado apaixonado, porque estamos juntos com pessoas que desejam'', comentou.
Sobre sua forma de encenação, o diretor dispara: ''quero um teatro que não seja espelho, mas que tenha o poder de criação da sociedade, do mundo em que ele existe. Teatro não é espelho de uma estrutura opressiva, que repete a impossibilidade de uma vida. Não quero a salvação, quero aproveitar a vida'', frisa Zé Celso.
O bate-papo poderia ir longe, mas o horário do espetáculo se aproximava. ''Mais alguma pergunta? Porque agora eu vou partir pra Terra''. E lá se foi Zé Celso encarnar Antônio Conselheiro, na apresentação da primeira parte de ''Os Sertões''. Do lado de fora do Oficina Swift, centenas de pessoas esperavam na fila. Fila? Isso, com direito a pulseirinha de identificação e tudo. Mas por pouco tempo. Logo a trupe do Oficina abriu as portas do barracão e invadiu a fila e botou todo mundo pra sambar, ao som contagiante da percussão.
Sem ordem de entrada, o público foi sugado para dentro do barracão, atrás dos atores que se posicionavam no espaço. ''Vamos sentar aqui em baixo, fica mais pertinho. Ah não, eu quero ver lá de cima'', diziam os espectadores. Em pouco tempo, mais de 350 pessoas se acomodaram em todos os cantos do Oficina para embarcar na viagem de três horas e meia de ''A Terra''. Antes, porém, Zé Celso não poderia deixar de ''modificar a paisagem''. Colocou todo mundo de pé e... Aquela gente toda esticando o braço, pulando, dando voltas. Agora sim, o espetáculo vai começar.
Uma grande celebração reuniu em cena quase 40 atores (adultos e crianças) para contar e cantar a primeira parte da saga de Canudos. A música e a dança invadem o espaço. Os corpos desenham a história. Cores, luz, cheiros, sensações. O chão de terra batida em contraste com os efeitos tecnológicos. O cenário está armado. E o público está dentro dessa poderosa máquina que pulsa.
A jornalista viajou a convite da organização do festival.

mockup