TEATRO - Zé Celso celebra ritos de dez anos do Oficina
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quinta-feira, 02 de outubro de 2003
Valmir Santos<br> Agência Folha 
Dos ciclos que seus artistas-arquitetos de carne e osso tornam memória há 45 anos, o grupo Oficina distingue mais um. Hoje, completa-se uma década que o teatro do Bixiga abriu os portões da rua Barão de Jaceguai, 520.
Melhor, reabriu. Porque a história do Oficina é de subsistência, feita de contradições e rupturas. O grupo começa com o aluguel daquele ''teatro espírita'' dos Novos Comediantes, por estudantes da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, em 1958, inaugurado Oficina em 1961.
Um incêndio destruiu o teatro em 1966. Foi reerguido no ano seguinte, conforme concepção dos arquitetos Flávio Império (1935-85) e Rodrigo Lefèvre (1938-84).
A repressão do regime militar, que já havia censurado montagens do grupo em 1968, bateu mais forte em 1974, invadindo o teatro e demarcando o exílio de oito anos do ator e encenador José Celso Martinez Corrêa, 66.
O 3 de outubro colocado em evidência agora, pelas novíssimas ou calejadas gerações de intérpretes, músicos, técnicos, produtores etc, na tetralogia de ''Os Sertões'', é aquele de 1993, quando se concluiu parte substancial do projeto arquitetônico da italiana Lina Bo Bardi (1914-92), conjugado por Edson Elito.
Para lembrar a década, será apresentado hoje um trecho de ''O Homem 2 - Da Revolta ao Trans-Homem'', espetáculo previsto para estrear até o final do ano, desmembramento da segunda parte da obra-prima de Euclydes da Cunha (1866-1909).
Em verdade, somam-se outros dez anos de demolição-reconstrução (1983-93), impulsionada pela volta de Zé Celso do exílio, em 1978 (ele rebatizaria o grupo como Oficina Uzyna Uzona em 1981, nome que se fixa nos anos 90), e ainda pelo tombamento do teatro pelo Condephaat, em 1982.
A noite de hoje, lua crescente, será de rito, quer dizer, de festa, avisa Zé Celso em texto-manifesto para o evento. ''Festejamos os dez anos de epifania destes trabalhos subterrâneos'', diz. ''Rito de passagem para dez próximos anos de paz, prosperidade, realização do Teatro Urbano de Estádio.''
O teatro-estádio é a extensão do que Bardi desenhou para o misto de palco e passarela que abraçaria ainda a área externa, à moda da Ágora grega também reforçada por arquitetos como Marcelo Suzuki e Paulo Mendes da Rocha.
''O Oficina não é o portal da Catedral de Colônia do fim do século 18, mas é o marco importante de um caminho difícil'', já previa Bo Bardi, citando a igreja gótica da cidade alemã.
Os artistas envolvidos na montagem de ''Os Sertões'' conhecem a fundo o significado prático e simbólico da palavra ''luta'', também o título do terceiro capítulo do livro, a ser encenado em 2004.
''O Teatro é o lugar nada messiânico da Utopia presente aqui agora e da contradição; e ''Os Sertões' nos une a todos como Mito Brasileiro de Negação do Massacre e afirmação de uma virada histórica'', afirma Zé Celso-Conselheiro. Ele chama todas as gerações do Oficina, dos anos 60 ao Uzyna Uzona dos 90 (''Ham-Let'', ''Bacantes'', ''Cacilda!'', ''Boca de Ouro'', peças gravadas em DVD, cujos trechos serão exibidos).
Também haverá espaço para a cena do batismo de Lírio, o bebê da atriz Ana Guilhermina, que quase nasceu no palco onde seu cordão umbilical está semeado.


