TEATRO - Viagens ao rio de Rosa
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quinta-feira, 05 de setembro de 2002
Francelino França<br> Reportagem Local 
O escritor Guimarães Rosa continua inspirando com sua obra monumental adaptações teatrais de seus textos. ''Em Alguma Margem, no Rio'', peça inédita de Viviane Dias, navega pelo universo poético rosiano. O monólogo tem como ponto de partida o conto ''A Terceira Margem do Rio'', protagonizado pelo ator londrinense Paulo Barcellos (ex-integrante do Armazém Cia. de Teatro), agora radicado em São Paulo.
A direção leva a assinatura do ator e diretor Jairo Mattos. A peça será apresentada de hoje até domingo, na Escola Municipal de Teatro, em Londrina, depois de uma temporada de dois meses no espaço cênico Ágora (Centro para o Desenvolvimento Teatral). Paulo Barcellos participa de projetos do Ágora, nas áreas de dramaturgia e reciclagem de atores. Ele também ministra aulas de teatro para adolescentes moradores do lendário bairro Bixiga.
No conto de Rosa, um homem abdica da mesmice da vida cotidiana e se mete numa canoa no meio de um rio. A peça ''Em Alguma Margem, no Rio'' extrapola esse microcosmo e dialoga com os autores Carl Gustav Jung, Mircea Eliade, Sófocles, Wilhelm Reich, desaguando em histórias bíblicas do Rei Davi. Costurando essas fontes, surge a história de um ex-jagunço (Serpente), que está numa canoa no meio do rio. Sua embarcação se prende a um tronco de árvore e ele tenta várias vezes se soltar, inutilmente.
Com o sol escaldante, o sertanejo é acometido por delírios, quando o tronco se transforma em um monstro ameaçador. Esse monstro, na verdade, é a esfinge do seu próprio rosto, numa recorrência ao mito de Édipo. Numa narrativa não linear, o herói passa a reviver suas memórias. Nesse reencontro com seu passado, o filósofo jagunço se defronta com zonas sombrias de sua psiquê. Os encenadores apostam numa linha alternativa ao drama burguês, apesar de o jagunço em questão estar centrado em seus dramas pessoais, ele busca valores coletivos.
A intertextualidade com a obra de Guimarães Rosa acontece pela viés do platonismo, da abordagem subjetiva do mundo e a intuição de um sertão, em ritmo de flash-back. A peça se transforma numa reflexão sobre a corrida desenfreada da vida urbana atual, mas com um colorido de realismo fantástico. O diretor Jairo Mattos e o ator Paulo Barcellos se debruçaram num trabalho de ensaios com quatro meses meses de leituras diárias em que reestruturou o contato do ator com a palavra. ''Considero essa peça um marco na minha carreira de ator. O diretor me ajudou a fazer amizade com as palavras e senti um crescimento. Jairo Mattos deixa o ator à vontade para contar a história'', revela o ator.
Ancorado na filosofia do Ágora em destacar o ator, sem os apelos de grandes cenários e produções dispendiosas, ''Em Alguma Margem, no Rio'' tem como elemento cênico apenas uma canoa. Jairo Mattos fez a concepção de luz e a sonoplastia de Aline Meyer ressalta tradicionais modas de viola.
''Em Alguma Margem, no Rio'', de Viviane Dias, inspirado na obra de Guimarães Rosa, direção de Jairo Mattos, interpretação de Paulo Barcellos. Hoje e amanhã, ás 21 horas, no domingo às 20 horas, na Escola Municipal de Teatro (Rua Acre, 315). Ingressos a R$ 10,00.


