Uma sintonia fina com o Brasil é o que estabelece o grupo Lume, de Campinas, que trouxe ao 3º Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto o espetáculo ''Café com Queijo'', montagem que estreou em 1999 e já viajou pelo Brasil como peça-chave de seu repertório. Trata-se de uma das melhores montagens apresentadas nesta edição do evento.
A partir de uma pesquisa realizada pelos atores Ana Cristina Colla, Jesser de Souza, Raquel Hirson e Renato Ferracini em várias regiões do País, com predominância da Amazônia, o grupo constrói um trabalho cênico em que utiliza uma técnica chamada Mímesis Corpórea. Em outras palavras, uma imitação rica, apurada, precisa e, ao mesmo tempo, sutil do comportamento das pessoas que, no caso deste espetáculo, integram as comunidades isoladas, o interiorzão, os cafundós do Brasil sem a contaminação social dos grandes centros.
O resultado é uma montagem extremamente sensível, em que o público viaja através de registros, emoções e, sobretudo, memórias que compõem o trabalho de quatro atores multiplicados em mais de 30 tipos. Caboclos, índios, violeiros, fiéis da Igreja, homens e mulheres simples, enfim, assombrados pela religiosidade, a solidão e a falta de saúde mas ''batizados'' por uma pureza e uma alegria atípicas se confrontadas com a crueza da realidade emergem em sua riqueza cultural e comportamental, num trabalho em que a grande ''costura cênica'' é uma proposta que se realiza no momento da apresentação, envolvendo também o público.
A história da montagem começa em 1993, com pesquisas de campo registradas em fitas cassetes e fotografias que serviram de base para o desenvolvimento da técnica utilizada pelo grupo. A partir desse material, de anotações pessoais e da memória dos próprios atores iniciou-se um trabalho individual que permitiu resgatar inclusive as sensações dos encontros vivenciados. Os atores-pesquisadores do Lume tinham em mãos um riquíssimo material que possibilitaria mais tarde revelar as pessoas contatadas e compartilhar a experiência com o espectador.
A pesquisa resultou num registro corporal e numa sonoridade que remetem às conversas de ''pé-de-ouvido'', elementos que constroem uma cumplicidade com o público que vai entrando no espetáculo até se tornar, também, um agente das cenas. Para isso, uma mixagem de corpo e alma, gestualidade e voz, se alinham perfeitamente sintonizando a platéia com o Brasil do interior, das lendas, do imaginário popular, tudo através do trabalho dos atores e do seu pacto com os espectadores.
Como disseram os integrantes do Lume à Folha2, o trabalho que inicialmente partiria de uma pesquisa das lendas brasileiras, acabou desembocando na construção de tipos que são a própria lenda, incorporações vivas da mística sertaneja, do Brasil povoado por compadres, comadres, tocadores de viola, contadores de ''causos''. O público é inserido neste contexto através de relatos e muitas cantorias. A música pontua permanentemente os depoimentos dos personagens que vão aparecendo isoladamente ou interagindo num trabalho de grupo afinadíssimo, um ''coro'' de figuras expressivas que são retratos da cultura brasileira.
O título ''Café com Queijo'' também foi tirado de uma das vivências do grupo em suas andanças. Em Paranã (TO), os atores puderam provar na casa de Dona Angélica e Seu Justino a tal bebida, que mistura o tradicional cafezinho com duas colheradas de queijo ralado. ''Café com Queijo'', segundo o grupo, tem sabor de tudo o que foi experimentado pelo elenco nessa viagem.
Por se tratar de um resgate proposto através da memória de pessoas idosas que vão contando suas vidas, a identificação do público é imediata. Na platéia, lembramo-nos dos tios e avós, dos parceiros e vizinhos que também emergem das nossas lembranças, com os atores propiciando um banquete afetivo que estabelece uma conexão imediata com nosso próprio baú de recordações.
Mas essa cumplicidade se estabelece de forma lenta, quando o público se dá conta já está lá, com o pé no espetáculo, sendo convidado a dizer versos e cantar ladainhas. O quarteto de atores teve a preocupação de trabalhar para que nada remetesse o espectador ao teatro, mas à vida.
O apego aos santos das novenas e das procissões, a alegria das festas comunitárias e a extrema melancolia trazidas pelas memórias, que soam tão familiares, redundam na comunhão do público com a encenação. Uma obra em que, a cada espetáculo, como afirma o grupo, a participação da platéia aparece como um retalho a se juntar numa colcha colorida.
O cenário simples construído por ''paredes'' de cortinas e bancos de madeira que aconchegam o público, oferecendo um conforto e um calor que remetem às casas sertanejas contribui com o clima de intimidade. Mas são mesmo as conversas, os relatos de ''pé-de-ouvido'', com cada ator exibindo visceralmente o mundo de seus personagens, os fios condutores de ''Café com Queijo'', uma receita cabocla de teatro construída a partir de uma pesquisa muito elaborada e sem desperdício de cenas.
Numa costura perfeita cada gesto e cada palavra têm extrema importância e nada soa em vão. O público permanece durante todo o tempo ligado, atento. A variedade de tipos e sotaques conduz a um mundo verdadeiro em que se fala ''andinho'' em vez de ''anjinho'', onde jacarés e morocotós um ''passaruzão'' que sobrevoa os rios e igarapés coexistem com o bicho homem, esta maravilha do mundo assombrado pelas lendas e que é a própria lenda, transformada pelo Lume num ser palpável a partir de memórias brasileiras que são também universais.

As jornalistas viajaram a São José do Rio Preto a convite da organização do festival

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