TEATRO - Uma questão de consciência
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 20 de agosto de 2004
Katia Michelle Pires<br> Equipe da Folha 
Curitiba - ''Quem lavará nossa consciência?''. Essa é a pergunta que os personagens Lenglumé e Mistigue, do espetáculo ''O Caso da Rua ao Lado'' fazem após terem, supostamente, participado de um crime. Eles decidem lavar as mãos, mas não contam com uma sucessão de fatores que colocam em dúvida as suas próprias ações e o caráter de cada um dos personagens.
Os dois amigos são interpretados por Luiz Fernando Guimarães e Otávio Muller. No espetáculo, uma das obras-primas do repertório das comédias francesas do século 19, os atores dividem o palco com Marisa Orth, Marcus Alvisi e Rubens Araújo. Dirigida por Alberto Renaut, a comédia estreou no ano passado e encerra a turnê pelo Brasil em Curitiba, com única apresentação hoje.
O espetáculo já ganhou montagens na França e Alemanha e teve até uma versão para o cinema (em 1923, com direção de Henri Diamant-Berger). Em entrevista a Folha 2, ontem, por telefone, o ator Luiz Fernando Guimarães deu a sua opinião sobre o fascínio que o texto ainda exerce, dois séculos depois de ter sido escrito. ''Dramaturgicamente, o texto é muito bem resolvido e a história é muito interessante pois brinca com níveis de suspense '', comenta o ator.
A trama de ''O Caso da Rua ao Lado'' começa após uma ''noitada'', quando Lenglumé e Mistingue, descobrem que objetos estranhos em seus bolsos podem ser indícios comprometedores de um crime. Sem lembrar de nada do que fizeram, eles mergulham em um pesadelo de acusações, culpa, mentiras e medo, sempre tendo como fio condutor o humor e a ironia. ''E nada mais atual do que essa paranóia'', salienta Luiz Fernando. Para ele, apesar dos personagens terem sido construídos no século 19, eles não perdem a sua atualidade.
O espetáculo reproduz alguns elementos de época, mas não tem a intenção de ser uma montagem datada, conforme reforça o ator. Os figurinos de Cláudia Kopke, por exemplo, fazem uma referência às roupas antigas, mas não são uma cópia fiel. Outra mudança em relação ao texto original foi a utilização da música no espetáculo. Escrito originalmente para ser uma opereta, o texto ganha aqui ares de uma ''peça musicada''.
No cenário criado por Gualter Puppo há a interferência de um piano para tornar possível a execução, ao vivo, das músicas compostas por Marcelo Faguerlande. ''Mas os personagens apenas esboçam uma musicalidade, não era nossa intenção transformar a peça num musical''.
Mas para Luiz Fernando, o que mais chama a atenção no espetáculo é justamente a temática que ele aborda. A urgência que os personagens têm de esconder a verdade e como cada mentira vai agravando um problema que talvez nem exista, tornando-os, por fim, reféns do absurdo.
Serviço:
- ''O caso da rua ao lado'', comédia de Eugène Labiche hoje, às 21 horas, no Teatro Guaíra. Ingressos a R$ 40,00 (platéia e 1º balcão) e R$ 30,00 (2º balcão).


