TEATRO - Uma odisséia pela saudade
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 08 de junho de 2005
Francismar Lemes<br>Reportagem Local 
O amor engana a vida se diz que ama aquele para quem não quer se dar. A saudade é o seu refúgio, onde pode abraçar o verdadeiro objeto do bem-querer ainda que com prejuízo à alma, amante de uma obsessão.
No espetáculo ''Salt'', da companhia dinamarquesa Odin Teatret, estréia de hoje no 38º Festival Internacional de Londrina (FILO), com reapresentações amanhã e sábado, às 21 horas, na Casa de Cultura (Rua Mato Grosso, 537), essa viagem obsessiva é dupla.
O diretor italiano Eugenio Barba pretende levar o público e o grupo, com 40 anos de existência, a uma linguagem cênica - reconhecida como a escola da Antropologia Teatral -, mas também a um novo olhar sobre a vida.
Essa peregrinação traz ao Filo, os atores-bailarinos Roberta Carreri e Jan Ferslev, dividindo a barca com a personagem de uma mulher, que viaja de uma ilha à outra do Mediterrâneo em busca de um homem amado. Ela é acompanhada por um fantasma.
É uma viagem através do olhar feminino em que mulher não sabe se ele morreu... se suicidou-se ou, simplesmente, desapareceu. Discípulo de Grotowski, Barba não acalma o mar do cotidiano, mas mexe em suas águas para ver os personagens caminharem sobre as ondas da existência.
Em ''Salt'', o mergulho deles no Odin começou molhando as pontas dos pés no trabalho paralelo de Roberta e Jan, iniciado em 1996. Para Roberta esse trabalho era como um postal de Lisboa: com uma sonoridade ensolarada e melancólica.
Os dois já tinham música e coreografia originais compostas, que Barba, em 2001, desconstruiu com a adaptação do romance epistolar ''Está ficando tarde demais'', do italiano Antonio Tabucchi (editado no Brasil pela Rocco).
Desde que o diretor conheceu Tabucchi num festival em Portugal foi conquistado pela obra de um admirador de Fernando Pessoa e tradutor de Carlos Drummond de Andrade para o italiano. Cada livro que publica, o autor manda uma cópia para Barba.
Entre os italianos, como é o caso do diretor do Odin e do escritor Tabucchi, ''saudade'' se aproxima apenas da nostalgia, que não contém o sentimento de perda, que bem conhecem os que amam alguém distante.
Porém, as 17 cartas enviadas para mulheres de diferentes lugares do mundo, que nunca as recebem do texto de Tabucchi, chegam à adaptação no espetáculo embrulhadas na saudade do próprio elenco.
''Viajamos bastante, ficando oito ou nove meses longe de casa. O espetáculo é uma reflexão sobre a vida. Uma vida de viagens constantes. Veja, eu tenho 50 anos de idade. Isso faz você refletir, pensar em você quando era jovem. O país que deixei aos 20 anos, no caso a Itália. Queria uma casa com jardins'', ressalta Roberta, acrescentando à poética avaliação a necessidade de lutar pela sobrevivência já que, apesar da companhia ter 40% das montagens subsidiadas pelo governo num país de 5 milhões de habitantes, a cidade do Odin, Holstebro, tem 32 mil habitantes, o que impõe ao grupo ir em busca de público além dos mares. ''Você tem jardins, netos, que não vê durante oito meses. Isso é parte da vida de Roberta'', diz a atriz - ao que podemos acrescentar ser parte também das saudades de Roberta.
O Odin esteve em Londrina pelo menos cinco vezes. Na edição 2005 traz um espetáculo que estreou em 2002, tendo se apresentado na Dinamarca e na Itália, Suécia, Espanha e Polônia. Além de Filo, ''Salt'' inclui no roteiro brasileiro Curitiba, Brasília e Rio de Janeiro.
Para Roberta e Jan que assistiram o seu projeto paralelo ao Odin se perder no trabalho de Barba, o processo não deixou de ser doloroso, como todo nascimento, onde os dois atores trabalharam sobre si numa operação de engenharia em que Barba é o parteiro do espetáculo. O que ele pretende é fazer com que o púbico descubra a sua saudade, que pode estar num amor que ainda não se deu ao objeto do bem-querer.
Ficha Técnica
Salt
Adaptação e direção: Eugenio Barba
Elenco: Roberta Carreri e Jan Ferslev
Música: Jan Ferslev
Cenografia: Antonella Diana e Odin Teatret
Figurino: Odin Teatret
Projeto de luz: Jesper Kongshaug
Projeto gráfico: Marco Donati
Assistente de direção: Raúl Iaiza
Consultor literário: Nando Taviani
Baseado no livro de Antonio Tabucchi
Espetáculo falado em italiano
Duração: 60 minutos
Faixa etária: acima de 14 anos


