Em nova incursão pelo mundo da marginalidade, a Cia. Tusc.u.s de Espetáculos traz ao público londrinense a história de Febrônio Índio do Brasil (1895-1984), homossexual que viveu 57 anos preso no Manicômio Judiciário Heitor Carrilho, no Rio de Janeiro, depois de ser acusado de raptar e matar dois garotos.
O personagem da vida real será interpretado no palco pelo ator Rogério Costa, sob direção de Silvio Ribeiro, que também assina roteiro e concepção cênica do espetáculo ''Febrônio'', que estréia hoje em Londrina. Com reapresentações amanhã e nos dias 10 e 11, a montagem pode ser vista na Escola Municipal de Teatro.
Considerado pela Justiça um ''louco moral homossexual com impulsões sádicas'', Febrônio foi declarado inimputável, mas tornou-se o primeiro interno desse manicômio judiciário, onde morreu de edema pulmonar agudo aos 89 anos. O personagem se enquadra na pesquisa desenvolvida pela Cia. Tusc.u.s, até agora com textos de Plínio Marcos, e que aborda principalmente a questão da violência.
Na concepção do espetáculo, Silvio Ribeiro partiu das alucinações místicas de Febrônio para ilustrar a trajetória do conturbado personagem, da infância até a morte. ''Para isso trabalhamos com os quatro elementos. A terra significa a volta à infância; a época dos crimes é marcada pelo fogo; a tentativa de purificação no manicômio é simbolizada pelo elemento água; e a liberdade adquirida com a morte é representada pelo ar'', explica.
Regido pelas alucinações místicas, Febrônio escreveu suas idéias apocalípticas em rolos de papel higiênico, datilografando-as mais tarde e transformando-as em livro: ''As Revelações do Príncipe do Fogo''. O único exemplar conhecido foi encontrado na biblioteca de Mário de Andrade (hoje no acervo da USP) e serviu de base para o trabalho da Tusc.u.s.
A figura de Febrônio era uma espécie de ''bicho-papão'' para as crianças brasileiras das décadas de 20 e 30, fama adquirida depois do assassinato dos dois meninos. Mas ele tinha outras passagens pela polícia. Aos 21 anos foi preso pela primeira das 29 vezes, por motivos como roubo, vadiagem e chantagem. Febrônio também exercia ilegalmente medicina e odontologia.
Rogério Costa construiu a personagem a partir de um trabalho de pesquisa corporal orientado por Ana Carolina Ribeiro, que também associou esse processo à criação do figurino. ''É um trabalho muito difícil por não ter uma dramaturgia, mas é bacana porque o personagem é muito forte'', diz Costa. O espetáculo tem 35 minutos de duração.


SERVIÇO:
''Febrônio'', espetáculo da Cia. Tusc.u.s de Espetáculos. Estréia: hoje, às 21 horas, na Escola Municipal de Teatro (Rua Acre, 315), em Londrina. Reapresentações: amanhã e dias 10 e 11 de abril. Roteiro, concepção cênica e direção geral: Silvio Ribeiro. Figurino e direção de movimento: Ana Carolina Ribeiro. Iluminação: Luiz Eduardo Pires. Ingressos: R$ 10,00 (R$ 5,00 para estudantes e aposentados). Recomendado para maiores de 16 anos.

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