Século 19. Cinco mulheres estão internadas como histéricas num hospício carioca. A situação revela várias faces da condição feminina diante de certos padrões sociais e comportamentais. A loucura faz ponte com questões como maternidade, religiosidade, sexualidade e independência. Século 21. Os valores de um outro tempo encontram eco na atualidade e estabelecem uma reflexão sobre a mulher brasileira.
Esse diálogo entre épocas é estabelecido na montagem ''Hysteria'', em cartaz amanhã e terça-feira em Londrina, na Casa de Cultura da UEL, dentro da programação do evento ''Um Olhar em Comum'' Projeto Imagens do Inconsciente.
Uma das gratas surpresas do teatro nacional, ''Hysteria'' é o primeiro trabalho do Grupo XIX de Teatro, de São Paulo, e também marca a estréia de Luiz Fernando Marques na direção. Criado no ano 2000 durante um curso na Escola de Arte Dramática da USP, esse grupo se estabeleceu a partir de uma pesquisa sobre a virada do século 19. ''A peça é decorrente desse estudo, quando levantamos a discussão sobre a condição feminina a partir de mulheres internadas no hospício Pedro II no Rio'', conta Marques.
O diretor explica que ao colocar os valores sociais da época em choque com os dias de hoje foi possível criar um contraste interessante. ''Partindo do princípio que a histeria é uma doença social, que existe em função de valores, quisemos provocar esse tema, questionando o que mudou e o que ficou nesses 100 anos''.
A pesquisa consumiu quase um ano e meio do trabalho do grupo, que vasculhou teses, ensaios, livros, estudos sobre histeria e loucura, jornais de época que mostraram, segundo Marques, o quanto a voz feminina foi embargada e como a história da mulher foi negligenciada.
O grupo construiu, então, cinco personagens baseadas em características que marcavam a vida daquelas mulheres, seja das que viviam para cuidar dos filhos ou do marido, das que eram reprimidas na busca de seu prazer ou ainda das que lutavam por seus direitos a qualquer custo. A dramaturgia, assinada por Marques, é fruto de todo um processo colaborativo que também envolveu as atrizes Gisela Millás, Janaina Leite, Juliana Sanches, Raissa Gregori e Sara Antunes.
O resultado foi um espetáculo comovente, que estabelece uma instigante relação com a platéia (formada por 60 homens e 60 mulheres). A começar pela entrada no teatro, quando homens e mulheres são separados. Eles vão para a arquibancada na posição de observadores. Elas se encaminham para o centro do palco, onde sentam-se lado a lado em bancos, estabelecendo aos olhos atentos da platéia masculina uma cumplicidade entre personagens reais e fictícias.
A eles é permitido delinear a cena. ''A separação da platéia é uma provocação'', diz Marques. ''É legal revelar o outro lado. O homem duro, que tem de sustentar a família, que não chora, que está ali 'só observando', de repente se vê frente a valores que também o aprisionam'', comenta. Já as atrizes criam uma relação de intimidade com as convidadas ao falar de preconceito, solidão, desejo, esperança. Em alguns momentos, as espectadoras apenas observam. Em outros, tornam-se coadjuvantes e comungam da mesma emoção.
Segundo Luiz Fernando Marques, o grupo buscou um canal diferenciado para trabalhar a interatividade sem se chocar o espectador. ''Um desses canais foi a cumplicidade feminina. As atrizes trabalham com a resposta ou o silêncio das mulheres da platéia, sem forçar nada. Toda a peça foi pensada para que a interatividade fosse criada de maneira gradual''.
Uma outra característica busca transportar a platéia para dentro dos muros dos asilos psiquiátricos. O cenário é um frio casarão em Londrina adaptado para um barracão que conta apenas com a iluminação natural. Por isso o espetáculo é apresentado durante o dia (às 12 e 16 horas).
''Hysteria'' estreou em São Paulo em novembro de 2001. A montagem estourou no Festival de Teatro de Curitiba em 2002. Sucesso na programação do Fringe mostra paralela do festival , conquistou público e crítica. No mesmo ano a trupe levou o Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) como Grupo Revelação e foi indicado na Categoria Especial do Prêmio Shell pela pesquisa e criação.
O espetáculo viajou por várias cidades brasileiras e, em abril, foi integrado ao projeto ''Formação de Público'', da Prefeitura de São Paulo. Nesse programa, alunos de cursos de alfabetização de adultos assistem à montagem em escolas municipais de terça a sexta-feira. Aos sábados e domingos, público em geral tem acesso a apresentações gratuitas. Em julho, o Grupo XIX participou de um festival na França. Luiz Fernando Marques diz que, até agora, ''Hysteria'' soma 156 apresentações para um público de 13 mil pessoas.

Serviço:
- Hysteria Espetáculo do Grupo XIX de Teatro, de São Paulo. Amanhã, às 16 horas, e terça-feira, ao meio-dia e 16 horas, na Casa de Cultura da UEL (Rua Mato Grosso, 537 telefone 43-3323-8562), em Londrina. Criação e pesquisa: Grupo XIX. Dramaturgia e direção: Luiz Fernando Marques. Duração: 1h10. Ingressos: R$ 3,00. Recomendado para maiores de 16 anos. Realização: Barbierê Produções. Patrocínio: Promic. Apoio: Casa de Cultura, Àmen e Aero Park Hotel.

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