TEATRO - Um grupo em muitos atos
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segunda-feira, 20 de outubro de 2003
Ana Setti Rosa<br> Reportagem Local 
O grupo é formado por quatro integrantes: Nádia Val, 23 anos; Gisele Silva, 21; Paulo Salvetti, 22, e Eduardo Oliveira, 22. Dois deles - Nádia e Paulo -estão se formando em Letras, enquanto os outros dois - Eduardo e Gisele - optaram por Artes Cênicas, todos na UEL. Nádia é a única londrinense da trupe, sendo que Paulo e Eduardo vieram de Piedade, interior de São Paulo, e Gisele, de Paranavaí, noroeste paranaense. Em comum, além da juventude e da ousadia, têm o amor pelo teatro, que querem transformar em modo de vida, em profissão. Apesar de já estarem constituídos como grupo teatral, o ''Ato de Fala'', ainda se encontram distantes do palco, pelo menos daquele tradicional, preferindo o ''tête-à-tête'' com o público em bares, restaurantes, eventos, no que se convencionou chamar de performance ou, mais apropriadamente, no caso de um grupo de teatro, de ''intervenção artística''.
Depois de autorizados pelo dono do barzinho ou restaurante, eles se colocam em pontos estratégicos - juntos ou separados, dependendo da performance - e declamam, cantam e atuam por dez minutos - tempo considerado ideal pelo grupo para não cansar o público -, driblando os garçons que passam, o burburinho insistente e, eventualmente, a desatenção de alguns. Mas, como comenta Paulo, tudo isso representa ''um grande lance para a nossa formação como atores''. Lidar com situações diferentes a todo momento, obter uma resposta rápida da platéia improvisada e enfrentar o inevitável ruído, conseguindo, apesar disso, ''conquistar a atenção dos frequentadores'', equivale a um curso intensivo de teatro. Por isso, não é de se estranhar que o ''Ato de Fala'' demonstre, em suas apresentações, uma impostação, um gestual e um ''tempo'' de cena comparáveis aos de um grupo teatral com extensa experiência.
E eles só começaram em 2001, reunindo-se, a princípio, para fazer ''pesquisa de linguagem'' e contando com mais um integrante, Adriano Moraes, que ficaria com o grupo até 2002. Entre produções independentes de espetáculos infantis, dificuldades para encontrar espaço com infra-estrutura adequada para estudos e ensaios, e o trabalho com teatro realizado na Associação de Moradores do Jardim Maringá, em Cambé, a arte foi exigindo do grupo dedicação em tempo integral, sem a proporcional reposição financeira. Como garantir a subsistência dessa forma? Foi aí que surgiram as ''Intervenções Artísticas''. A primeira concepção da performance baseava-se em ''Poema & Música'', com repertório musical que ia ''de Ataulfo Alves a Astor Piazzola'', como conta Nádia, e um cardápio literário que procurava abranger ''todos os poetas da língua portuguesa, e mais um pouco''.
Dessa forma, começaram a garantir sua manutenção, uma vez que ''passávamos o chapéu na sequência de cada atuação'', de acordo com Paulo. Embora rentável, o trabalho árduo de muitas noites, nas quais o grupo comprometeu-se, segundo Gisele, ''a nunca perder o prumo ou se deixar abater, sejam quais forem as reações do público'', tem suas surpresas. Podem ser boas, como a de um senhor que, emocionado com a atuação e não tendo dinheiro no momento, deu-lhes um cheque de R$ 50,00. Podem ser ruins, como a de uma turma de adolescentes que ''insistiu em cantar o ''Parabéns a Você'' enquanto o grupo atuava'', como conta Eduardo, numa competição frustrante e infrutífera. Pode ser também que ocorram equívocos, como daquela vez em que a opção do grupo foi fazer uma performance, incluindo até mesmo uma ''procissão'' pelo meio do restaurante, com base no auto de Natal pernambucano ''Morte e Vida Severina'', de João Cabral de Melo Neto, com músicas de Chico Buarque, o que acabou por se revelar muito teatro para apenas dez minutos de apresentação. Comentários não muito estimulantes, tais como ''Ih, lá vêm aqueles mendigos novamente'' ou ''Detesto teatro!'', também fazem parte da passagem desse grupo itinerante pela noite de Londrina.
Mas a vida segue seu curso e o ''Ato de Fala'' não é de se deixar intimidar. No ano passado, o grupo conseguiu aprovação do Programa Municipal de Incentivo à Cultura (PROMIC) para o projeto ''Cenas Londrinenses'', atualmente ''em cartaz'', a qualquer momento, nos bares e restaurantes da cidade. As ''cenas'' - dez ao todo - retratam momentos ou personagens da história de Londrina, e cada uma delas, de acordo com o projeto, deve ser apresentada em pelo menos 15 locais diferentes. A principal novidade da mais recente série de ''intervenções artísticas'' é que o grupo conta com diretores convidados para orientar sua performance, um para cada duas cenas.
Do total programado de cenas, o grupo já desenvolveu quatro, tendo trabalhado com os diretores Thaís D'Abronzo, Mauro Rodrigues e Maria Fernanda Coelho. Os temas já abordados referem-se à estação ferroviária nos idos de 1934; à rádio londrinense fazendo história nas décadas de 40 e 50; a ''um fragmento da vida da rádio-atriz, jornalista e locutora londrinense Vita Guimarães'' e aos ''anos do Eldorado'' (1950/60), com detalhes ''às vezes escabrosos'' da boemia e prostituição na cidade. Claro que cada cena exige muita pesquisa e não só da história em si, mas de tudo o que a cerca, como ''o vocabulário, o figurino, o gestual, a aparência...'', explica Nádia. ''Vamos atrás de referências'', complementa Paulo, ''daqueles detalhes fundamentais que revelam a cidade sobre a qual estamos falando''. Todo esse estudo acabou surpreendendo o grupo. ''Tem dado para perceber'', diz Eduardo, ''que Londrina sempre foi muito avançada, moderna, especialmente no que diz respeito ao posicionamento da mulher''. Pesquisas, estudos e performances à parte, cada vez mais o ''Ato de Fala'' se aproxima do palco. ''Sempre que ensaiamos uma cena'', conta Gisele, ''imaginamos que pode vir a render um bom espetáculo''. Quem sabe para o ano que vem? Eles estão com vontade de sentir de novo aquele ''friozinho na barriga'' que precede o enfrentamento dos grandes desafios.
Serviço: Contatos com o grupo teatral ''Ato de Fala'', inclusive para saber sobre a programação itinerante de ''Cenas Londrinenses'' nos bares e restaurantes de Londrina, pelo telefone: (43)9123.1221 (Nádia).


