Esta talvez seja a história mais pungente da humanidade. A história de um homem, considerado o filho de Deus, que se permitiu morrer de forma violenta por amor aos homens, chamados por Ele de ''irmãos'', com o objetivo profundo de resgatar os nosso pecados e nos dar a chance de uma vida nova: feliz e cheia de paz. Mesmo para os não cristãos essa entrega absoluta de compaixão impressiona. A abundância do amor de Deus constrange.
Há mais de dois mil anos essa história vem sendo retomada. Em abril, dentro do Cristianismo, celebra-se a Paixão de Cristo. O momento é de reflexão e de penitência para aqueles que aproveitam os 40 dias que antecedem a Páscoa para abrir mão de alguns dos desejos mais profundos durante esse período. É uma forma de sacrifício mesmo que singela diante da renúncia a que o filho de Deus se submeteu. Ele foi radical: renunciou a todas as vantagens de ser Deus e, depois, ficou a mercê de todas as desvantagens de ser homem. Mesmo no momento mais difícil da sua vida, não passou pela sua cabeça retirar uma carta mágica divina que o livrasse da tristeza, da agonia, da fadiga e dos momentos de desânimo. Foi fiel ao homem até as últimas consequências.
Para relembrar essa doação completa de amor e resgate, há 20 anos é celebrada a Paixão de Cristo na Vila Portuguesa na sexta-feira que antecede a Páscoa. A primeira apresentação foi em 1978 por iniciativa de um grupo de jovens da Paróquia Nossa Senhora da Paz. A idéia ganhou corpo e a encenação continou sendo apresentada ininterruptamente até 1989. Desta data, até 1995, o trabalho foi interrompido, mas desde então tem sido apresentado para o encanto de milhares de pessoas que acompanham o evento. No ano passado, segundo os organizadores, foram cerca de 20 mil pessoas que participaram da celebração. E a expectativa de público é a mesma neste ano.
São mais de 180 figurantes envolvidos no trabalho de contar a história de Jesus Cristo do nascimento até a morte, por crucificação, seguida do momento mais esperado, a sua ressurreição.
Este ano, quem encarna o papel de Jesus é o jovem Diego Gonçalves Dias e sua história de vida está intimamente ligada à Pascoa. Há 21 anos ele nasceu em um domingo de Páscoa. Sua mãe que na época vivia o papel de uma figurante do povo judeu na encenação da Paixão de Cristo da Vila Portuguesa sentiu as primeiras dores do parto durante a apresentação, realizada na sexta-feira da Paixão.
Hoje, além de Diego viver o papel principal, sua mãe, Valdete Gonçalves Dias, 43 anos, é Maria, a mãe de Jesus. Seu marido, Roberto Antonio Gonçalves Dias, 43 anos, é o diretor da peça e o outro filho do casal, Davi, 16 anos, participa como o ladrão que é crucificado ao lado direito de Jesus e se arrepende dos seus pecados pouco antes da morte de Cristo.
''É uma emoção muito forte vivenciar tudo isso. Me envolvo tanto que chego a perder o fôlego de tanto chorar no momento que acolho o meu filho, pouco antes da crucificação. É terrível, dá para imaginar o tamanho do sofrimento que Maria passou'', comentou Valdete.
''Para mim está sendo muito gratificante fazer o papel de Jesus Cristo. É muita responsabilidade, mas desde que fiquei sabendo que iria fazê-lo na encenação, tenho me preparado, e realmente interiorizado a mensagem de Cristo. Na minha vida diária, estou conseguindo pensar o 'que Jesus faria em meu lugar' antes de tomar qualquer atitude. Estou conquistando muita paz de espírito e paciência'', disse Diego.
''O nosso trabalho tem a intenção de mostrar o amor de Deus, fazer com que as pessoas tenham a oportunidade de refletir sobre a Paixão de Cristo nos dias de hoje. Tudo o que Ele passou para que tivéssemos uma vida nova através da sua ressurreição. Precisamos aprender que o seu amor está presente no nosso dia-a-dia'', destacou Roberto, diretor da peça.
''A encenação tem um recado. Se você não vê o poder de Deus em Jesus, não há como não ver o poder da violência, da maldade e do poder. Isso serve de reflexão para todos nós'', acrescentou Alexandre Orsi, que faz parte da organização.
Há três anos o adolescente Aguinaldo Tono Jr., 16 anos, participa da encenação. É um dos soldados que fica cuidando do sepulcro onde o corpo de Jesus é colocado. Ele acredita que o contato constante com a história faz com que as pessoas fiquem menos emotivas diante do drama de Cristo. ''Mas, de qualquer maneira, é impressionante vivenciar isso no teatro. Parece que dá para sentir a dor de Cristo, como se estivéssemos lá'', afirmou.
Neste ano a encenação também traz novidades. Foram acrescentadas a passagem sobre o apedrejamento de Maria Madalena, a oração do Pai Nosso e a Parábola do Bom Pastor em que Jesus alerta para que não ajamos como ovelhas 'sem Pastor'.

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