TEATRO - TV na cabeça
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quinta-feira, 25 de março de 2004
Ana Paula Nascimento<br> Reportagem Local 
Era um dia normal. Tavinho, como sempre, estava diante de três televisões, ligadas ao mesmo tempo para ele não perder seus programas e comercias favoritos. A intimidade era tanta, que os aparelhos tinham apelidos: babá, plim-plim e fantástica. De repente, acontece algo que poderá mudar totalmente a vida de Tavinho: uma anomalia magnética deverá afetar as ondas de televisão. Desesperado, Tavinho se vê diante da possibilidade de não poder mais assistir à tevê e, a partir daí, começa uma divertida história que estimula a reflexão sobre a influência da telinha na imaginação infantil.
A peça ''O menino sem imaginação'' é uma adaptação do livro do mesmo nome do escritor carioca Carlos Eduardo Novaes, feita pelo dramaturgo e diretor Maurício Arruda Mendonça que disputa o prêmio Shell 2004 na categoria de melhor autor pela peça ''Kerouac'', monólogo encenado por Mário Bortolotto. A estréia será hoje, às 19h30, no Centro de Convenções do Hotel Sumatra, durante o I Seminário de Atenção à Saúde Integral da Adolescência e Juventude Brasileira, promovido pela Asbra (Associação Brasileira de Adolescência). A apresentação, aberta ao público em geral, tem entrada franca e, será seguida de debate sobre o tema com o psiquiatra e psicanalista José Outeiral, do Rio Grande do Sul (RS). Em maio, a peça deverá ser reapresentada durante congresso do Conselho Regional de Psicologia, que será realizado na Universidade Estadual de Londrina (UEL).
A iniciativa de realizar o espetáculo, destinado a crianças a partir de seis anos, partiu do projeto Pais em Paz, que há oito anos atua em Londrina junto à Organização Vir a Ser. Coordenado pela psicóloga Eliana Louvison, esse trabalho é voltado à formação de pais e educadores; neste ano a temática escolhida para debate foi o prejuízo do excesso de TV na imaginação das crianças.
A proposta é que a peça seja itinerante e possa ser apresentada em escolas, ruas e locais que possam aglutinar o maior número de crianças e adolescentes. ''A idéia é suscitar nas pessoas a reflexão, o questionamento sobre o papel da televisão na vida das pessoas. Não pretendemos 'demonizar' a TV, mas promover o debate, o auto-questionamento'', disse Eliana.
Segundo ela, o ideal seria que sempre houvesse um adulto junto com a criança para interagir com ela sobre o que está sendo assistido, além de impor limites sobre o tempo de exposição. ''A TV dá a imagem pronta e, quando assistida excessivamente, rouba da criança a capacidade de inventar, de devanear, de ter tempo livre para brincar ou fazer nada'', acrescentou. Todo esse ''vício televisivo'' acaba por inibir a criatividade e o pensamento crítico, defende a psicóloga.
Na montagem, o personagem principal, Tavinho, interage com mais quatro personagens: o avô, a irmã, um louco de rua e um cego. No caso do personagem cego, é interessante a abordagem de que apesar da deficiência visual, ele tem uma grande capacidade de imaginação, e que isto não depende da visualização das ''imagens'' da televisão como Tavinho chega a alegar durante a peça como se fosse incapaz de ''imaginar'' sem o auxílio da TV.
''A peça não tem como objetivo ser um espetáculo para debates profundos, mas questionar a função da TV dentro do cotidiano e indagar sobre o seu papel social de educar e informar'', destacou Mendonça. ''Desde meados do século XX. a televisão assumiu uma função formativa de subjetividade e acabou se transformando em um eficiente mecanismo de veicular idéias de consumo e mercado. É preciso questionar se isso está sendo bem usado ou não'', diz.
Serviço:
- Estréia da peça ''O menino sem imaginação'', com dramaturgia de Maurício Arruda Mendonça. Amanhã, às 19h30, no Centro de Convenções do Hotel Sumatra, como parte da programação do I Seminário de Atenção à Saúde Integral da Adolescência e Juventude Brasileira. Entrada franca. Participam do elenco os atores Ana Rocha, Byron Scouris, Jacqueline Sasano, Janaína D'Ávila e Ricardo Purpur. A criação sonora é de Valquir Fedri, com preparação vocal de Eric Mago. As escolas podem agendar apresentações pelo telefone (43) 3327-0229 ou pelo e-mail [email protected].


