TEATRO - Tempo de celebração
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segunda-feira, 05 de março de 2007
Beth Néspoli<br> Agência Estado 
Foi em Londrina, que nasceu o grupo Cemitério de Automóveis, fundado por Mário Bortolotto, em 1982. O nome era Chiclete com Banana - ''homenagem aos quadrinhos do Angeli'', lembra Bortolotto. Na época, esse autor, diretor e autor que hoje tem cerca de 50 peças escritas - ''não sei exatamente, nunca contei'' -, 31 delas publicadas em quatro livros, jamais poderia imaginar que a trajetória do grupo fosse ser tão longa, premiada, e ainda arrebataria tantos admiradores num centro urbano como São Paulo.
Um público fiel que certamente vai lotar, mais uma vez, a partir de hoje o porão do Centro Cultural São Paulo, onde começa a 4 Mostra Cemitério de Automóveis, com sete peças apresentadas de terça a domingo, até o dia 29 de abril. Começam assim as comemorações dos 25 anos do grupo que se mudou para São Paulo em 1996, já rebatizado. ''Mudei o nome porque o Angeli ficou famoso, e aí parecia que a gente estava querendo pegar carona.''
Entre as peças escolhidas para integrar a mostra estão desde a criação mais recente, a ótima ''Chapa Quente'', adaptação dos quadrinhos de André Kitagawa, passando por montagens elogiadas pela crítica e bem recebidas pelo público como ''A Frente Fria Que a Chuva Traz'' até outras raramente levadas ao palco, como ''Efeito Urtigão e Tempo de Trégua.''
''Frente Fria'' flagra o comportamento leviano e violento de jovens de classe média que alugam uma laje na periferia para dar um tom ''exótico'' às suas baladas. Já foi encenada no Rio, sob direção de Caco Ciocler, no morro do Vidigal, na sede do grupo Nós do Morro. ''Vi e gostei. Os atores globais faziam os mauricinhos e patricinhas, os do morro faziam os personagens do morro. Ficou interessante.''
Bortolotto costuma dizer que em ''Chapa Quente'' nada mais fez do que ser fiel aos quadrinhos de Kitagawa. Não é bem assim. Sua direção coreográfica potencializa conteúdo e imagens das histórias selecionadas. Exemplo claro está na cena em que uma garota é atingida por uma bala perdida no momento em que 'discute a relação'. Ao usar o recurso da simultaneidade de ações, ele explora uma falsa antecipação de tempo com tal precisão que transforma sua fonte de inspiração numa pérola de humor negro.
A mostra antecipa uma programação de aniversário ainda mais intensa prevista para o segundo semestre, uma vez que agosto foi o mês de fundação do grupo, com a estréia da peça ''Você Viu uma Azeitona por aí?''. ''Vê se isso é titulo!'', ironiza o autor, Bortolotto. ''Com essa peça eu fiz teatro do absurdo - era absurdo de ruim'', diz com o humor crítico que lhe é peculiar sobre a peça que jamais publicou. ''E nem vou.''
Lucidez não lhe falta para avaliar os saltos de qualidade do grupo ao longo dos anos. ''A Medusa de Rayban'' foi um marco, valeu a primeira indicação para o Prêmio Shell. A estréia foi no CCSP, com apresentações às terças e quartas. No início, não havia quase ninguém na platéia, aos poucos foi enchendo, o teatro lotou, foi sucesso de público, depois lotou o TBC, uma virada.'' O outro marco foi a estréia paulistana de ''Nossa Vida não Vale um Chevrolet'', também no CCSP, em 2000. ''Ganhei prêmios e em breve vai estrear a versão para cinema, o filme está pronto ''
Esses são marcos externos, que dizem respeito ao reconhecimento, importantes, claro, mas há outros. ''Pessoalmente, considero 'Chapa Quente' um marco de direção, consegui fazer quase tudo o que queria. Como autor, 'Homens, Santos e Desertores', pela sofisticação da linguagem.''


