TEATRO - Sob medida para as crianças
PUBLICAÇÃO
sábado, 30 de setembro de 2006
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Teatro pra criança é coisa séria. A afirmação pode parecer heresia, mas ainda tem muita gente que ignora o potencial desse segmento e não leva em conta a exigência desse público. Assim como tem muita gente que escolheu o teatro para crianças como profissão e objeto de estudo e cada vez mais investe nesse nicho. Para desenvolver novas linguagens para o exigente público infantil, a Companhia Regina Vogue, de Curitiba, acaba de inaugurar o Centro de Estudos de Teatro para Crianças.
Aos 62 anos, mais de 45 anos de carreira e quase a metade desse tempo dedicado ao teatro para os pequenos, Regina quer mudar a cara do teatro para criança. ''Chega de contar historinhas cor-de-rosa, o mundo mudou'', clama. O primeiro espetáculo montado dentro do núcleo de estudos é ''Sherazade e o Fantástico Mundo das Mil e uma Noites'', dirigida por Maurício Vogue e que está em cartaz no teatro que leva o nome da atriz, diretora e produtora, no Shopping Estação.
Regina começou a se dedicar à produção de teatro para esse público em 1986, quando montou ''Chuva de Cores'' (texto e direção de Onivaldo Dutra). De lá para cá, clássicos como ''O Rei Leão'' e inéditos como ''A Fada que tinha idéias'', integraram o repertório da companhia. Sobre essa trajetória e o futuro da produção do teatro para crianças, a partir do Centro de Estudos, Regina Vogue falou à Folha. Acompanhe a entrevista.
Já são duas décadas dedicadas ao teatro infantil em 46 anos de carreira. Só de teatro para crianças você já produziu mais de 30 espetáculos. Tem como fazer um balanço desse período. Existe alguma montagem que tenha te marcado mais nessa época?
Eu tenho carinho por todas os espetáculos porque cada processo é diferente. E o que mais me fascina é exatamente o processo de cada espetáculo. A gente fica naquela expectativa do que vai acontecer. Será que a gente acertou? Será que as crianças vão gostar? Tudo é um desafio. E isso eu vivo durante toda a minha vida. Tem pessoas que gostam de escalar montanhas. Eu gosto de fazer teatro. De descobrir coisas novas, tentar sempre o novo, não ficar na mesmice.
E o público infantil é também um desafio?
Eu sempre acho que o teatro infantil é bem mais difícil que o teatro adulto. É, sim, um grande desafio porque a gente está formando platéias. Tem que ter um cuidado imenso. É a nossa responsabilidade. E foi pensando nisso que a companhia Regina Vogue está montando o Centro de Estudos de Teatro para Criança.
Isso é uma novidade. Como vai funcionar?
O Centro de Estudos para Criança vai envolver principalmente o Mauricio Vogue (filho de Regina e diretor da maioria dos espetáculos infantis da companhia), na coordenação e também outros profissionais, como pedagogos e pessoas que estejam interessadas em fazer teatro para criança. Já estamos com sete pessoas que estão desenvolvendo um trabalho nesse sentido.
Com qual objetivo?
Desenvolver novas linguagens. A gente não pode mais só ficar contando histórinhas cor-de-rosa. Temos que ter mais responsabilidade com o teatro para criança hoje, diante de tudo o que está acontecendo no mundo. Diante de todas as mudanças.
Como você avalia o cenário do teatro infantil no Brasil e no Paraná? Já existe um estudo direcionado para essa área?
Acho que tem sempre tentativas. Tem pessoas tentando fazer boas coisas e diretores que pensam muito sobre esse público. Mas está na hora de pensar em outra coisa. Acho que o teatro infantil no Brasil precisa ser melhor. A gente não pode subestimar esse público. Hoje está precário porque paramos no tempo. Ficamos nas historinhas, no teatro convencional.
Nos espetáculos que você produziu, em algum deles aconteceu alguma coisa em particular que te emocionou?
Tem várias coisas que me marcaram, sim. Como no ''Menino Maluquinho''. Quando acabou o espetáculo, uma menina na platéia não parava de chorar. Fomos ver o que estava acontecendo e ela nos contou que estava chorando porque o menino maluquinho cresceu e ela não queria que ele crescesse, assim como ela não queria crescer. A gente se emocionou com isso... E agora recentemente em São Paulo, apresentamos ''Contadores de Histórias'', que entrava um carrinho em cena. Um garotinho especial que assistiu às quatro apresentações, no final veio nos presentear com um carrinho de papelão que ele tinha feito. Isso pra mim é fantástico porque a gente vê que envolveu a criança. Isso é gratificante e faz com que a gente queira muito mais fazer teatro para criança. É uma brincadeira séria.
E quais são os projetos atuais?
Estreamos ''Sherazade''. Essa peça a gente resolveu tomar como a primeira a fazer parte do Centro de Estudos para Criança porque pesquisamos bastante o mundo oriental e o mundo árabe antes de montá-la. Esse espetáculo tem um conteúdo muito sério e muito importante.
Fale sobre a escolha de textos para crianças. Montar clássicos é mais fácil?
O Centro de Estudos vem para dar essa resposta. A gente não pode deixar de fazer os clássicos, mas a nossa idéia é descobrir novas linguagens. A idéia é descobrir temáticas e assuntos atuais. Falar de sexualidade para criança, por exemplo. Assunto que quase ninguém fala no teatro. Acho que temos que descobrir a forma como falar sobre isso. ''Sherazade'' fala de morte, de traição e a gente mostra isso. Porque essa é a realidade.
E depois de Sherazade tem algum novo projeto?
Eu quero ver se viajo com o espetáculo. Trazer pessoas de fora também para debater temas ligados ao teatro infantil. A gente precisa trocar mais informações. Tem que ter essa ligação. A gente não pode mais ficar só em Curitiba, achando que nosso teatro é ok. Porque não é. Vamos remontar ''Menino Maluquinho'' também no ano que vem, com direção do Mauricio Vogue, da Fátima Ortiz.


