Curitiba Uma matéria publicada na Folha2, há três semanas, mostrava como os grupos de teatro estavam se adaptando à falta de recursos e à morosidade das leis de incentivo à cultura, apostando mais no talento das pessoas envolvidas do que em grandes e custosas produções. O 14º Festival de Teatro de Curitiba que encerrou no último domingo mostrou que essa não é uma característica apenas da capital paranaense. Montagens calcadas no trabalho do ator e trazendo bons textos, dispensando grandes cenários e figurinos, foram os grandes destaques do maior evento nacional de teatro.
Dos 12 espetáculos da Mostra Contemporânea, os que mais se destacaram tinham uma coisa em comum: a simplicidade. Dentro dessa perspectiva, os grandes destaques ficaram para ''Dança Lenta no Local do Crime'', do diretor paulista Luiz Valcazaras; ''Baque'', de Mônica Gardemberg e ''Daqui a Duzentos anos'', única representante curitibana da grade oficial do evento e talvez a mais ''barata'' das produções apresentadas.
A montagem, intitulada como um exercício pelo diretor Márcio Abreu, começava quando os atores (Além de Luis Melo, Janja, André Coelho e a cantora Edith) entravam no teatro, vestidos com roupas comuns e olhando diretamente para a platéia. Eles se colocavam diante de um círculo de madeira disposto no chão, em cadeiras igualmente comuns. Melo dava o sinal para contar a primeira de três histórias de Anton Tchekhov (''O Amor'', ''O Caso de Champagne'' e ''A Brincadeira'') que seriam destiladas durante os próximos 60 minutos. É Melo, aliás, que conduz todo o espetáculo, quase que apagando a participação dos outros dois atores, embora André Coelho tenha momentos surpreendentes.
O espetáculo não chega a ser uma unanimidade (como foi com ''Volta ao Dia em 80 Mundos'', do mesmo diretor apresentado em 2003) e oscila entre momentos enfadonhos e perspicazes, mas mostra como é possível fazer um bom e sincero trabalho sem grandes recursos. ''Dança Lenta no local do crime'' traz um cenário um pouco mais elaborado. Um armazém serve como pano de fundo para o encontro de três atores, todos trazendo o peso do passado em suas histórias. A montagem, também com bons e maus momentos, mereceu atenção principalmente por revelar um dos melhores atores que passaram pela 14 edição do festival: Rogério Britto.
As três histórias de ''Baque'' também despertaram a consideração e a comoção da platéia. Principalmente a primeira, um cruel mais pelo fato do que pela abordagem relato de como um pai mata (ou se omite diante de um acidente fatal) a filha recém-nascida diante da ameaça de perder o emprego. Emílio de Mello está excelente no papel do homem de negócios que protagoniza a história e acaba por ofuscar a atuação de Carlos e Débora Evelyn na cenas que seguem. A segunda, de um casal que igualmente vive uma tragédia nos tempos em que eram universitários, mas que não se abalam, seguindo a frivolidade que suas vidas apresentam. A terceira história, monólogo de Débora Evelyn, não é menos densa, mas é prejudicada pela falta de preparo da atriz.
O que destoa em ''Baque'' são os cenários que se tornam supérfluos diante da atuação dos personagens e uma exibição de um vídeo que não se encaixa no contexto. Os vídeos, aliás, parecem ter sido o grande fio condutor dos espetáculos da mostra contemporânea do festival, utilizado em cinco, das 12 montagens apresentadas. Já o Fringe apresentou 178 montagens, com poucas atrações se sobressaindo. Essa foi a maior edição do festival, o que não significa que a quantidade das peças tenha sido exatamente uma qualidade do evento.

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