TEATRO - Raul Cortez encena peça de Bortolotto
PUBLICAÇÃO
domingo, 08 de fevereiro de 2004
Beth Néspoli<br> Agência Estado 
São Paulo - Impossível não sorrir diante da imagem do ator Raul Cortez, feito novamente menino, brincando de bola de gude em roupinha de marinheiro. O estranhamento inicial é substituído por uma espécie de encantamento. Só mesmo o talento e o despudor de um ator de teatro para imprimir verdade a tão inusitada viagem no tempo. No caso, uma longa viagem, que começa no berçário de uma maternidade, cenário inicial da peça À Meia-Noite Um Solo de Sax em Minha Cabeça, que estreou na sexta-feira, no Teatro Faap, em São Paulo.
De autoria de Mário Bortolotto e dirigida por Cibele Forjaz a peça acompanha uma belíssima e transformadora amizade entre dois homens (Cortez e Mario César Camargo) que começa literalmente no berço, onde dois bebês, de origem social muito diferente, entabulam seu primeiro diálogo. Cortez faz ainda participações especiais na peça seguinte, Fica Frio - Uma Peça on the Road também de Bortolotto, que é apresentada logo depois de Um Solo de Sax, sem intervalo. Dirigida por Sérgio Ferrara, com Chico Carvalho e Renato Chocair no elenco, Fica Frio aborda a relação entre dois irmãos.
Bortolotto é autor de muitas peças e a amizade masculina - a um só tempo viril e de um afeto profundo -, é tema comum a muitas de suas obras. Por conta de seus personagens marginalizados, ele já foi comparado a Plínio Marcos. Mas o que chama atenção em sua obra é a profunda esperança que carrega, o otimismo para com o ser humano. E isso aparece mesmo nos cenários mais sórdidos, observa Cortez que leu vários peças do autor. O poder da amizade para ele é tão forte que pode criar um solo de sax na cabeça do brasileiro.
Bortolotto é também ator e diretor do Grupo Cemitério de Automóveis, atualmente com sede no Teatro Alfredo Mesquita, onde reestreou sexta-feira A Frente Fria Que a Chuva Traz. Tendo como ponto de partida uma festa sobre uma laje de periferia organizada por garotos de classe média, que brincam de pobres, a montagem dirigida pelo autor leva ao palco um de seus textos mais recentes, indicado para o Prêmio Shell/2003. Também na sexta, ele lançou o livro Doze Peças de Mário Bortolotto. Sim, isso mesmo. São doze peças editadas e trata-se da 4ªpublicação reunindo peças teatrais de sua autoria.
Graças a essa prática, publicar as próprias peças, Bortolotto facilitou a Cortez o conhecimento de sua obra. Eu entrei em contato com sua dramaturgia pela primeira vez na Mostra de Dramaturgia Contemporânea do Sesi, lembra. Depois foi ver outra montagem, no porão do Centro Cultural São Paulo, e ali comprou os livros de Bortolotto, sempre à venda nos teatros onde o grupo apresenta suas peças. Atuando na chamada periferia do teatro - de onde, historicamente, vem a renovação -, essa será a primeira vez que a dramaturgia de Bortolotto ganha montagem protagonizada por um artista já consagrado como Cortez. Bom para o teatro, que sempre sai enriquecido com parcerias artísticas como essa.
Seus textos têm ritmo, diálogos ágeis, fluentes, diz Cortez. Cada cena tem vontade e contravontade, observa César Camargo. Ele sabe lidar com a essência do teatro que é o conflito. Os cortes são rápidos, as cenas curtas, mas muita coisa acontece em cada uma delas. Há cenas em que um personagem muda de idéia num momento de silêncio. É preciso estar atento para o subtexto, porque muita coisa acontece sem estar escrita, observa Cortez. Bortolotto escreve para ator, é um autor intuitivo e o que faz é bom teatro, conclui César Camargo.
SERVIÇO
À Meia-Noite Um Solo de Sax em Minha Cabeça/ Fica Frio - Uma Peça on the Road. De Mário Bortolotto. Direção Cibele Forjaz e Sergio Ferrara.De quinta a
sábado, às 21 horas; domingo, às 20 horas. R$ 45,00 (quinta-feira e domingo) e R$ 50,00 (sexta-feira e sábado). Teatro Faap. Rua Alagoas, 903, São Paulo. Informações pelo telefone (11) 3662-7233. Em cartaz até 1º de maio.


