''Victoria'' é um espetáculo que trata de um assunto difícil: a velhice, a perda da memória e da autonomia. Ao mesmo tempo é divertido. Um espetáculo do qual o público sai de bom humor. Dulcinea Langfelder, artista norte-americana radicada no Canadá, vai apresentar à platéia do Festival Internacional de Londrina (Filo) a viagem de uma personagem que criou sua própria história, ultrapassando regras e orientações do mundo real. A montagem será apresentada hoje e amanhã no Teatro Ouro Verde, às 20h30.
Dulcinea Langfelder tem formação em teatro, dança e mímica. Sobre este trabalho, debruçou-se durante quatro anos, criando uma montagem baseada em uma abordagem multidisciplinar que mistura dança, canto, mímica, performance e atuação. Dulcinea diz gostar muito de fazer o público rir. ''Também gosto de cantar, gosto do mundo das imagens. Quando estou no palco faço tudo o que gosto'', comenta.
A personagem Victoria, uma idosa de 90 anos, perdeu a memória e o controle de sua vida. Acaba de perder também a companhia, sua gata de estimação. Perdeu praticamente tudo ligado à vida real. Ganhou uma cadeira de rodas. Mas resolveu dar um mergulho na liberdade, criando seus próprios sonhos e reconstruindo livremente sua memória. ''A peça dá coragem e levanta a moral das pessoas. Não é uma peça de teatro triste. Tentei criar uma personagem com quem todos se identifiquem. Jovens, adultos, idosos, de todas as culturas. É um assunto que tem a ver com todos'', salienta Dulcinea.
A artista explica que quase tudo em ''Victoria'' é inspirado na realidade. Tanto as pessoas como as situações. ''Uma vez conheci uma senhora de 90 anos que me disse: 'estamos na mesma classe de aula'. Perguntei 'qual' e ela me disse que na sexta série, muito convicta disso. Para ela isso era real''.
Dulcinea Langfelder, que estuda o riso há anos, comenta: ''Me dei conta que um palhaço bom tenta imitar uma criança de três anos. Quando estamos em frente a uma criança de três anos, pensamos sempre em um palhaço. Mas uma pessoa idosa que retorna à infância tem mais vida atrás dela. Dá um palhaço muito mais rico''.
O espetáculo não tem uma história linear e, como define Dulcinea, não é uma história do lado esquerdo do cérebro. ''É do lado direito. E o público compreende que ela está fazendo uma viagem... para a morte''.
Em Londrina, o ator Yves Simard subirá ao palco com Dulcinea como um auxiliar da personagem idosa. ''Tenho quatro atores na companhia que fazem este mesmo papel, o que é extraordinário, porque cada um deles o faz de maneira diferente e cria uma relação muito forte com ela. Eles passam por toda uma gama de momentos difíceis, maravilhosos e horríveis. Victoria é uma celebração da relação entre a pessoa doente e quem cuida dela''.
O espetáculo será apresentado em espanhol, com alguns trechos em português. É que Dulcinea Langfelder procura sempre trazer o texto para o idioma local. ''Victoria'' existe em diferentes versões (francês, espanhol e até japonês). ''É muito importante falar a língua do público, apesar de o texto não ser mais importante que o visual e a movimentação do espetáculo. Espero ser convidada outras vezes a vir a Londrina para poder fazê-lo todo em português'', diz a artista. Ela já se apresentou no Canadá, Estados Unidos, França, Bélgica, Espanha, Japão, Venezuela, China e Malásia.
Nascida em Nova York, Dulcinea deixou os Estados Unidos para se tornar artista. Depois de morar na França, escolheu o Canadá. ''Lá o reconhecimento e o desenvolvimento das artes têm mais importância. Gosto de Montreal porque os artistas convivem muito e sempre trocam impressões''. A companhia de Dulcinea está completando 20 anos de carreira. ''Quando comecei, queria fazer um trabalho que me desse orgulho e me fizesse sentir estimada pelo público. Acho que cheguei lá''. ''Victoria'' é o sexto espetáculo da sua carreira.


Serviço:
- Victoria Espetáculo de Dulcinea Langfelder, do Canadá. Com Dulcinea Langfelder e Yves Simard. Direção: Catherine Devost. Direção artística e coreografia: Dulcinea Langfelder. Composições eletroacústicas: Christian Calon. Iluminação e cenário: Anna Capelluto. Vídeos: Yves Labelle. Duração: 1h20.

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