São Paulo - Antes de viajar para uma temporada em Portugal, no início do ano, como convidado para dirigir duas montagens teatrais em Coimbra, Marco Antonio Rodrigues deixou pronto o espetáculo ‘‘O Cara Que Dançou Comigo’’, peça de Mário Bortolotto, com Jairo Mattos e Renata Zhaneta no elenco. Depois de passar por oito cidades do interior de São Paulo, a montagem entra em hoje no Teatro N.Ex.T., em São Paulo, em comemoração ao aniversário de seis anos da casa.
  ‘‘Meu personagem é totalmente psicopata e estou me divertindo bastante’’, diz o ator Jairo Mattos numa aparente contradição. Mas é possível compreender. As situações criadas por Bortolotto não raro vêm carregada do humor negro. Ao mesmo tempo, são vividas por pessoas com as quais cruzamos pelas ruas todos os dias, bastante reconhecíveis, mas que olhadas de perto não são nada comuns.
  Nesta peça, Mattos interpreta um sujeito neurótico que, literalmente, invade o apartamento da vizinha para ‘abaixar’ o volume da som, para ele, insuportavelmente alto. ‘‘Ele é um maluco que jura ser um neurótico de guerra, guerra mesmo, do Vietn㒒, comenta Mattos. Viu muito filme enlatado na televisão? ‘‘Claro; ele é fã do seriado Combate, cujo protagonista é um sargento que salva gente o tempo todo, aquela coisa bem de americano.’’
  A vizinha é uma fotógrafa bem mais pé no chão. Ela acaba de se mudar para o prédio, na verdade, nem mesmo terminara a arrumação, está chegando com sua mudança, quando se vê obrigada a aturar o neurótico do lado. Num primeiro momento, não está nem um pouco interessada na doença dele, mas ele se encanta. Daí uma relação se estabelece. ‘‘Importa mesmo nisso tudo é a solidão deles. A peça é sobre isso, solidão e isolamento tipicamente urbanos.’’ Só quem vive numa metrópole é capaz de viver anos num mesmo prédio, ao lado de um mesmo vizinho e nem ao menos saber o seu nome, jamais ir além do cumprimento formal. ‘‘Quando ela chega, ele estava à beira do suicídio. Ambos são muito solitários, duas loucuras que se completam.’’
  Na visão de Mattos, tudo o que eles precisam é de um pouco de atenção verdadeira. ‘‘E isso acontece, entre eles, em algum momento. Pode parecer estranho, mas para quem está no fundo do poço, numa situação de extremo isolamento, às vezes apenas um olhar é suficiente para trazer o sujeito à tona.’’
  montagem foi um projeto acalentado por longo tempo. ‘‘Acho que o mais gostoso é o jogo que nós dois estabelecemos. Talvez não fique claro para o público, mas a reação positiva nas apresentações leva a crer que nossa alquimia é captada na platéia.’’ Após a estréia, o N.Ex.T convida parceiros para uma animada festa de aniversário. Afinal, são seis anos abrindo espaço para a dramaturgia brasileira.

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