TEATRO - Para rir sem censura
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terça-feira, 01 de agosto de 2006
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
Tudo, ou quase tudo, que os homens falam sobre as mulheres na ausência delas é verbalizado na peça ''Diálogo dos Pênis''. A comédia é atração hoje e amanhã, às 21 horas, no Teatro Ouro Verde, em Londrina. Com texto de Carlos Eduardo Novaes, a montagem transporta para o palco a cena clássica de dois amigos numa mesa de bar tagarelando sobre as vantagens e desvantagens do casamento, desempenho na cama, adultério, zonas erógenas preferidas e outros assuntos picantes.
A peça é protagonizada por dois atores conhecidos do público: Marcos Wainberg, o ''Severino'' do programa ''Zorra Total'' (Globo); e Jaime Leibovitch, que fez o papel do ''pedófilo'' na novela ''América'' (Globo). Na montagem, Leibovitch encarna o jornalista Lula, que desenvolveu as mais extravagantes teorias para conquistar as mulheres. Wainberg, por sua vez, é o arquiteto Beto, que se casou três vezes e ''quer deixar a vida de galinhagem para se casar novamente''.
Um é o contraponto do outro. Enquanto o primeiro dispara pensamemtos infames, o outro ameniza a conversa com reflexões sensatas. Amigos de infância, eles se encontram com frequência para trocar desabafos, desinibidos pelo álcool. A peça estreou há cinco anos no Rio de Janeiro. De lá para cá, mantém uma bem-sucedida trajetória pelo País, com mais de 100 cidades visitadas e um público estimado em mais de 450 mil espectadores.
Neste mês, faz uma minitemporada pelo Paraná. Além de Londrina, será apresentada no próximo sábado no Cine Ópera, em Ponta Grossa, e nos próximos dias 9 e 10 no Teatro Fernando Montenegro, em Curitiba. Ao longo do percurso, nem sempre o espetáculo foi bem recebido, sendo censurado em algumas cidades por causa do título do espetáculo, o que os atores acham um despropósito.
Em Londrina, esta semana, a divulgação da peça foi vetada numa emissora de televisão. ''Pênis é o nome científico que designa o órgão genital masculino, assim como a vagina é o nome científico da genitália feminina. As pessoas que coram diante da palavra pênis são extremamente perigosas, são elas que jogam bombas e foguetes sobre civis indefesos, muitas vezes em nome de Deus'' argumenta Leibovitch.
''Diálogo dos Pênis'' tem apoio da Folha de Londrina, que está publicando cupons-bônus para desconto na aquisição dos ingressos. A seguir a entrevista que Marcos Wainberg concedeu à Folha2,
O universo feminino é o personagem principal da peça?
A peça mostra dois homens descasados falando de mulheres. Mas o mote principal é o encontro de dois amigos de infância, que sempre frequentam um bar para fazer uma espécie de análise. A diferença do espetáculo é que, ao contrário de uma roda de conhecidos, eles não contam vantagens, não contam mentiras, não ficam se vangloriando disso ou daquilo. Por serem amigos de longa data, ele abrem a alma tornando a conversa sincera e verdadeira. Acho até que os homens da platéia sentem raiva da gente.
Da estréia da peça para cá, houve muitas mudanças no texto original? Vocês interferiram nos diálogos?
O ator é um ser intrometido. O autor entrega o texto para o diretor e este entrega o texto para os atores. Ele apresenta uma linha, uma tendência, mas não consegue segurar o texto intacto. Nenhuma apresentação é igual à outra. É como uma impressão digital, não existem duas iguais. Tudo interfere: a emoção do ator, o físico, a dor, o estado de saúde do elenco, o público, os fatos da política. E isso é o mais apaixonante em teatro. Diferente do cinema ou da televisão, ele nunca se repete nesse contato direto do ator com a platéia.
Vocês tiveram problemas de censura com a peça por causa do título?
Em Londrina, não pudemos dar uma entrevista para uma rede de televisão esta semana justamente por causa disso. Segundo eles, a gente não poderia falar o nome da peça. Acho até que a cúpula da emissora nem ficou sabendo do veto. Foi a atitude de uma pessoa, de um cancro. Tivemos o mesmo problema em Caraguatatuba (SP) onde uma diretora de um teatro vetou a apresentação do espetáculo. Ela estava de férias quando acertamos a data. Quando ela voltou, acabou censurando às vésperas da apresentação. Veja só: uma única pessoa decidiu o que outras podem ou não assistir. O título da peça pode remeter ao chulo, à baixaria, mas não tem nada disso na peça. O Carlos Eduardo Novaes é um autor requintado, que busca temas do cotidiano. É um similar do Luis Fernando Veríssimo, de quem é contemporâneo. Ele jamais escreveu algo chulo. Ele, aliás, até relutou com algumas piadas que inserimos na peça para divertir a platéia.
Como o público reage ao espetáculo? Como tem sido o contato com a platéia nos camarins após as apresentações?
Viajamos por todos os Estados do País, com exceção do Acre. Fomos a muitas cidades em que os costumes são mais rígidos. Lembro de três casais que vieram nos agradecer por causa da peça. Eles tinham identificado problemas na relação através do espetáculo. Falaram que a peça tinha aberto suas cabeças.
As mulheres são maioria nas poltronas?
O público tem sido majoritariamente feminino. Elas têm curiosidade em saber o que os homens falam sobre elas. Para nossa surpresa, a peça tem sido bastante assistido por jovens. A impressão é de que, por mostrar dois homens de meia idade separados, a peça atrairia apenas mulheres na mesma faixa etária. Não foi o que ocorreu. Mas acredito que a frequência feminina se deve menos ao fato dos dois personagens falarem sobre mulheres do que propriamente ao fato das mulheres terem uma maior interesse cultural que os homens.
Serviço:
- Espetáculo ''Diálogos dos Pênis''.Hoje e amanhã, às 21 horas. Local: Teatro Ouro Verde (Rua Maranhão, 85). Ingressos: R$ 30,00 e R$ 15,00 (com bônus da Folha). Ponto de venda: Triton Óculos (Catuaí Shopping e Shopping Royal Plaza).


