TEATRO - 'Os Sertões' segundo o Oficina
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 20 de agosto de 2003
Célia Musilli<br> Enviada a São Paulo 
''Os Sertões'', obra monumental de Euclides da Cunha (1866 - 1909), atravessa um portal que parecia impossível: a teatralização de uma epopéia indigesta e brasileira embalada pela estética de Zé Celso Martinez Corrêa nos 42 anos da Companhia de Teatro Oficina, também chamada Uzina Uzona.
O livro é dividido em três partes: ''A Terra'', ''O Homem'' e ''A Luta''. Adaptada para o teatro, ''A Terra'' estreou em dezembro do ano passado e a primeira parte de ''O Homem'' abriu temporada em São Paulo na última sexta-feira, 15 de agosto, quando se completaram 94 anos do assassinato de Euclides da Cunha.
Nas quatro horas e meia de apresentação deste ''capítulo'' ainda pela metade, o que se vê é um musical pontuado pelo canto-coral do elenco e muita percussão abrindo, conduzindo e fechando uma grande gira. Um ritual sertanejo que desenha o teatro de Zé Celso para quem o tempo adquire outra dinâmica. Uma das habilidades do diretor do Oficina é utilizar as horas de forma criativa, concebendo uma montagem em que a narrativa tênue é compensada por impactos, ritmos, respirações, discursos cênicos que mobilizam a atenção do espectador.
Ainda que a primeira parte de ''O Homem'' precise ser enxugada, ainda que as quatro horas e meia de espetáculo tenham altos e baixos, a alma da montagem vibra na platéia identificada com uma estética brasileira das entranhas, feita de festas e ritos populares, de simbolismo e ícones culturais. Miscigenação de angústias e miscigenação de sonhos.
Recebido na porta do Oficina por um coro de atores que canta ''Ciranda Cirandinha'', o público é convidado a entrar no território lúdico que ilumina a República dos esfarrapados para vislumbrar Canudos nas ações do MST e na figura mítica de Antônio Conselheiro as lideranças populares do Brasil contemporâneo e ainda sem reforma agrária. Após a ''Ciranda'', o que se vê é o ajuntamento humano em torno da construção de um acampamento que pode estar numa aldeia indígena, no recôndito baiano ou no Pontal do Paranapanema. É sobre este recorte social e étnico que se debruçam os atores do Oficina, um elenco de 40 pessoas entre adultos e crianças.
Na roda, o debate sobre as origens da raça brasileira é um capítulo primordial, dura cerca de três horas até o intervalo. Com índios, europeus, africanos e os derivados mulatos e cafuzos construindo a saga de maneira única, a teatralização da epopéia de Canudos aponta o engasgamento da antropologia na discussão de um país de mil raças, todas elas representadas num elenco também heterogêneo. A discussão que toma mais da metade do espetáculo é um exemplo de antropofagia étnica em que, literalmente, um tipo engole o outro mostrando que o Brasil não tem tipo algum.
No ambiente de misturas, a rede é um elemento cênico importante, esticada em pelo menos vinte metros de extensão, pontua o embalo do português que ''come'' a índia ou do índio que ''come'' a negra em intermináveis noites tropicais temperadas com sexo e humor.
O sexo no teatro de Zé Celso é generoso, aparece em quase todo o espetáculo resultando numa desmistificação do corpo que substitui o choque pelo prazer da diversão. Em qualquer outra situação, uma atriz com o rosto encoberto e com uma vagina que ''fala'', ''atuando'' com autonomia e anatomia, pareceria apenas recurso de mau gosto ou apelo barato de sex shop. No Oficina o humor se sobrepõe ao ridículo e mesmo para uma noite de estréia - com um público de convidados que teve avós e crianças nas galerias - a cena passa batida através da dinâmica vertiginosa dos atores que entram e saem aproveitando o espaço do teatro feito sob medida para o Oficina. Entradas de personagens pelo subsolo e a escalação de paredes com nádegas à mostra - despudoradamente coladas ao vidro que divide o território do teatro com o estacionamento que pertence ao Grupo Silvio Santos - misturam a fabulosa linguagem cênica com a possibilidade de interpretar a própria vida sob ângulos mais criativos e sem qualquer censura. Tudo contribui para a antítese do controle.
Muitas vezes, as portas do teatro-nação se abrem para a rua adaptando o público externo à cena, incorporando o pipoqueiro da rua ao espetáculo. Quando pensou na arquitetura do Teatro Oficina, Lina Bo Bardi deve ter levado em conta a estética criada por Zé Celso que arranca a fórceps a cena do ambiente teatral para muitas vezes incorporá-la à vida da cidade e dos seus habitantes.
Uma crítica que pode ser feita à montagem que acaba de estrear é a falta de atuações acentuadas ou convincentes. Não existe um trabalho forte de interpretação centrado em qualquer um dos personagens. Nem mesmo Marcelo Drummond, no papel de Euclides da Cunha, se sobrepõe. A encenação em sua totalidade é a grande estrela do espetáculo. Num trabalho que respira o oxigênio do transe coletivo, a massa de sertanejos amotinados em festas e batalhas para as agruras ou a felicidade, salta à frente do individualismo interpretativo. Os atores formam um corpo único transpirando tragédias e delícias. Sob esse ponto de vista, a busca de um trabalho centrado na força de alguns atores desvia-se para o encontro do que seria um ''organismo'' desenvolvido para toda a encenação. Este bolo de identidades diluídas, de força interpretativa que se constrói em bando, pode apontar a falta de grandes atores em cena ou a generosidade grupal presente no trabalho de Zé Celso.
Num elenco em se juntam crianças de 7 anos com veteranas como a bailarina francesa Renée Gumiel - com pelo menos 80, incorporando uma sinistra fazendeira, dona de um rebanho que mistura homens e bois - a desigualdade e o contraste são propositais em todos os níveis. A fazendeira que aparece em cena, trespassada por imagens projetadas que reproduzem pregões da Bolsa de Valores, é a encarnação da elite em qualquer tempo do capitalismo, dos sertões euclidianos à contemporaneidade do Brasil ao romper do século 21. A diferença social brutal é o que está em jogo no ''terreiro tecnológico'' de Zé Celso, uma gira que mistura macumba com poder, resgatando ícones da cultura brasileira apedrejada em seus valores humanos. O orixá Omulu - deus da doença e da cura - ou a vaca que aparece em cena na pele de uma atriz belíssima, representando a elite do rebanho em roupa de plástico que remete a um boi-bumbá vanguardista, são representações genuínas do Brasil crente/descrente que ainda precisa encarar a grande revolução.
Nos últimos momentos do espetáculo, a figura de Zé Celso incorporando Antônio Conselheiro aponta os rumos da mudança necessária que ainda não ocorreu, mas que está na hora do parto. É o voto de confiança numa rebelião engendrada nos acampamentos onde a luta pela terra é uma saga histórica que remonta às origens do Brasil. Os sertanejos de Canudos continuam maltrapilhos no país de agora, mas podem ter a força do touro no rebanho da mitologia nacional. Hoje protegem-se nas barracas de lona preta, alegoria que ''veste'' Zé Celso no espetáculo. É ele, depois de despir a lona e a própria roupa, quem propaga o discurso do Conselheiro, dos visionários, dos revolucionários do passado, do presente, do futuro. Nesta gira quase interminável, o Oficina mostra de novo que é teatro pau-brasil. Muito Brasil, muito pau...Estandarte cultural de uma raça teimosa que não vai a pique. Uzina de criação. Uzona, que celebração!
Serviço:
''Os Sertões - O Homem'' (Parte 1): no Teatro Oficina (Rua Jaceguai, 520) em São Paulo, aos sábados e domingos, às 18 horas. R$ 20,00. Informações pelo telefone (11) 3104-0678. Em cartaz até 26 de outubro.


