Apesar dos quase 50 anos dedicados à literatura, ela teve seu primeiro livro com textos teatrais editado somente em 2000. ''O Rato no Muro'', uma das primeiras peças da dramaturga, ficcionista e poeta paulista Hilda Hilst, 73, foi escrita em 1967, durante a ditadura.
Encenada no ano seguinte pelos alunos da Escola de Arte Dramática, em São Paulo, sob direção de Terezinha Aguiar, também foi apresentada na Colômbia. Trinta e seis anos depois, ''O Rato no Muro'', volta a ser montado, no Paraná, em duas encenações que estréiam no mesmo dia: hoje, em Londrina e Curitiba (leia matéria nessa página).
A montagem londrinense foi realizada pelo Teatro Labirinto, através do projeto ''Irmã H'', e tem direção de Rafael Camargo, diretor de Curitiba. A estréia será às 22 horas, no Teatro Obrigatório Universal (TOU). No elenco estão as atrizes Meire Gonçalves, Vera Lúcia Pilchowski, Camila Fontes, Rosane Brandão, Ludmila Castanheira, Caroline Hampf, Michele Almeida, Carla Dyacov, Danielle Lara e Maria Fernanda Coelho.
Na concepção de Rafael Camargo, as dez freiras estão enclausuradas em um aparente convento em formato de caixa preta. Elas não sabem porque estão ali e nem o que existe atrás daquele muro que, segundo o diretor, é uma metáfora das limitações do ser humano. ''O texto é marcado por sentimentos de culpa por elas não poderem ultrapassar esses limites. Tudo se reverte em desejo reprimido'', detalha o produtor José Maria Pereira Jr.
O espetáculo é marcado pela falta de ação, em um diálogo circular que traz a musicalidade peculiar da obra de Hilda Hilst. ''Ela propõe o diálogo como ação; é a força da palavra'', comenta o diretor. Diante disso, Rafael Camargo procurou estabelecer uma encenação circular sutil e com um fluxo natural. As atrizes interpretam as personagens fazendo uma espécie de rodízio, como se o texto apresentasse um único pensamento. Como diz o texto da autora: ''Nós somos um, nós somos apenas um, um só rosto, um''.
O cenário é uma caixa preta de 5 x 5 metros, que fecha as atrizes atrás do muro, passando a idéia de clausura, de pergunta sem resposta. Durante 50 minutos, o público formado por 30 pessoas poderá acompanhar a cena do lado de fora, espiando por frestas do muro e buscando relações com seus próprios desejos, medos e culpas, num exercício de auto-observação.
Para Rafael Camargo, o texto de Hilda Hilst apresenta vários questionamentos. ''É um caleidoscópio. Quando a gente imagina que entende alguma coisa, se perde de novo e surge uma nova conexão'', comenta. Ele sinaliza que ''O Rato no Muro'' não é um texto para ser desvendado. ''É uma metáfora da questão humana. Traz sensações e percepções, mas nunca respostas. E isso é o mais rico''.
O projeto ''Irmã H'', patrocinado pelo Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic), começou em setembro, com a seleção do elenco. Este é o segundo trabalho de Rafael Camargo em Londrina (ele dirigiu ''Cabaré Amálgama'' este ano). Amanhã, acontece a estréia de mais um espetáculo sob sua direção na cidade: ''S.K.'', de Maurício Arruda Mendonça.

Serviço:
- ''O Rato no Muro'' espetáculo do Teatro Labirinto. Texto: Hilda Hilst. Concepção e direção: Rafael Camargo. Produção: José Maria Pereira Jr. Estréia: hoje, às 22 horas, no TOU (Rua Rio Grande do Sul, 75), em Londrina. Temporada até 21 de dezembro, de quarta a sábado, às 22 horas, e domingos, às 20 e 22 horas. Realização: Projeto Irmã H e Teatro Labirinto. Patrocínio: Promic. Apoio: Aero Park Hotel e TOU (Teatro Obrigatório Universal). Ingressos a R$ 6,00 (estudantes, aposentados, classe artística e funcionários da UEL pagam meia). Não recomendado para menores de 18 anos.

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