Existe uma janela no cotidiano por onde poderíamos ver as pessoas profundamente - se não fosse o medo que temos das relações, como observa a peça ''Por Elise'', do grupo mineiro Espanca!.
A montagem é atração do 38º Festival Internacional de Londrina (FILO) hoje e amanhã, às 21 horas, na Usina Cultural (Avenida Duque de Caxias, 4159).
Pela ótica de um dia na vida dos personagens, o espetáculo tenta revelar o que não está na superfície da pele do homem. A revelação pode não ser fácil de digerir. Razão pela qual um dos personagens avisa: ''O ambiente é esse aqui. Moro por aqui, onde acontecem alguns encontros. Eu vou mostrar alguns desses encontros. Não se envolvam com essas histórias. Isso é só teatro''.
Desenhado como uma fábula pela dramaturgia e direção de Grace Passô, a peça estreou na mostra paralela Fringe do Festival de Curitiba, sendo considerada uma saborosa surpresa entre as 200 peças apresentadas.
''Por Elise'' nasceu depois que o grupo participou da edição 2004 do Cenas Curtas Galpão Cine Horto, realizada pelo Grupo Galpão com objetivo descobrir novos talentos. O argumento apresentado em 15 minutos acabou ganhando corpo para caber em uma hora de duração da peça.
Acotovelado no cotidiano da montagem, o público conhecerá os moradores de uma vila qualquer com estradas para a memória pessoal do espectador, que certamente vai se encontrar com os personagens na esquina da identificação.
O nome do espetáculo já sugere esse lugar comum ao pescar reminiscências do público com a música ''Por Elise'', do caminhão de gás.
O argumento poderia fazer referência ao vendedor de pamonhas, gritando ''pamonhas, pamonhas, pamonhas'', que não sairíamos desse lugar comum que obscurece as relações humanas com tantos ruídos.
Assim, escondidos no barulho do conveniente, os personagens dizem coisas que não sentem e se comportam de um jeito que não pensam. São vizinhos buscando segurança e proteção em suas casas - metáforas da vida.
''O público é alertado de que são só histórias: 'Não se envolvam tanto'. Com o passar do tempo, a peça fala sobre envolvimentos. Como é possível não se envolver? Isso não faz com que você não sofra! Se proteger exageradamente na vida não dá condições de não se envolver'', afirma a diretora Grace Passô, que também atua no papel da dona de casa.
A delicadeza com que a peça trata os personagens interpretados ainda por Gustavo Bones, Marcelo Castro, Paulo Azevedo e Samira Ávila, não abandona os atores quando tratam dos medos e mentiras da nossa falta de segurança.
Entre um lixeiro, um funcionário que recolhe cães doentes, a dona de um desses animais e o cachorro - que late palavras numa metáfora da verdade - a dona de casa plantou o pé de abacate no quintal. Ela vive se esquivando, com medo de que algum caia na sua cabeça. O que a gente planta não sabe se vai dar frutos bons. Abacate quando cai, espanca. Mas é doce.

- Ficha técnica:
Direção e dramaturgia: Grace Passô
Elenco: Gustavo Bones, Marcelo Castro, Paulo Azevedo, Samira Ávila e Grace Passô
Figurinos e ambientação cênica: Marco Paulo Rolla
Iluminação: Leonardo Pavanello
Edição e composição de trilha: Daniel Soares

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