Ana Paula Nascimento
Reportagem Local

Numa época em que a ditadura mostrava suas garras, foi formado o Grupo de Teatro Universitário de Arapongas (Gruta), que se tornou referência do teatro de engajamento social e político. Era 1968 e a médica e atriz Nitis Jacon de Araújo Moreira – hoje presidente do Centro Cultural Teatro Guaíra – aceitava o desafio de montar e dirigir um grupo de teatro, após ser procurada por um grupo de alunos da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Arapongas (Facicla). A partir daí, até 1982 – três anos antes do fim da ditadura –, o grupo nunca se intimidou em debater os abusos da repressão e encenar peças que mexiam nas mazelas de um dois períodos mais sangrentos da política brasileira. Toda essa história será contada neste sábado e domingo, em Arapongas, no Teatro Oduvaldo Viana Filho, às 20h30, quando estréia a peça ‘‘O Grito Conta Gruta’’.
  No palco, 16 atores participam da narrativa que mostra um dia da diretora Nitis Jacon envolta em lembranças e fantasmas marcados por toda a efervescência criativa que marcaram os trabalhos do grupo. Quem interpreta a diretora, é a atriz Claudette Di Gennaro, ex-Gruta, que conviveu durante dez anos com Nitis. A dramaturgia e direção são de responsabilidade de João Henrique Bernardi, que também participou da pesquisa junto com Fabrício Borges. Além do apoio da Prefeitura de Arapongas e patrocinadores locais, o espetáculo conta com apoio do Programa Paranização, criado pelo Governo do Estado, no ano passado, que tem como principal objetivo fomentar a visibilidade e capacitação de grupos locais. Os integrantes da peça fazem parte do Grupo Grito, montado em 2003, como resultado de uma oficina de teatro. Está é terceira montagem do grupo.
  O trabalho da montagem foi realizado em 37 dias, baseado em pesquisas históricas e entrevista com ex-integrantes do Gruta – metodologia desenvolvida por Bernardi, que tem extensa experiência com grupos teatrais da terceira idade. Por telefone, Nitis disse que se sente honrada com a homenagem e lamentou a falta de tempo para acompanhar mais detalhadamente a montagem do grupo. ‘‘Esse trabalho é muito importante pelo resgate que faz do processo evolutivo e transformador que o Gruta gerou no Paraná. Fomos o primeiro grupo do Estado a nos dedicar à formação de atores, a trabalhar técnicas então desconhecidas por aqui, introduzindo Brecht, por exemplo’’, contou Nitis, que desde a época do colegial já fazia teatro amador em Botucatu (SP). ‘‘Foi uma das épocas mais gloriosas da minha vida, em que todos tinham uma paixão imensa pelo teatro. O nosso trabalho era uma alternativa à mediocridade imposta pela ditadura, um ‘oásis da democracia’’’, destacou.
  A carreira artística teve continuidade enquanto aluna de medicina da Universidade Federal do Paraná (UFPR), em Curitiba, o que lhe valeu diversos prêmios, inclusive o de melhor atriz pela crítica especializada. Nitis Jacon foi durante cerca de 20 anos diretora do grupo Proteu e é presidente de honra do Festival Internacional de Teatro de Londrina (Filo).

SERVIÇO
– O Grito conta Gruta, espetáculo com o grupo Grito. Hoje e amanhã, às 20h30, no Teatro Oduvaldo Viana Filho, em Arapongas. Ingressos: R$ 6 e R$ 3 (estudantes e idosos). Texto e direção: João Henrique Bernardi. Assistência de direção: Fabrício B. Borges.

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