Reconhecer a violência que existe dentro de cada um de nós faz parte da reflexão que a Cia Livre, de São Paulo, traz à Londrina, nesta segunda e terça e quarta-feira, com a apresentação de ''Arena Conta Danton'', na Casa de Cultura, às 21 horas. Em uma montagem que privilegia a interatividade com o público, já na primeira cena o espectador será convidado a se posicionar diante da vida e da morte. Nos assentos, bonequinhos vermelhos de papel serão colocados para que o público possa escrever aquilo que gostaria que morresse. Depois, os papéis serão lidos pelos atores e o público poderá decidir o que deve ou não ir para a guilhotina.
Essa interação é a porta de entrada para um espetáculo-jogo que conta a história do revolucionário francês George-Jacques Danton, guilhotinado em 1974 durante a fase do Terror da Revolução Francesa, marcada pela luta entre duas facções da esquerda, que também causou a morte de 17 mil pessoas. O enredo mostra o caráter trágico que os processos revolucionários podem assumir e a linha tênue que separa as idéias de liberadade do risco de se transformarem em tirania. No caso, a entrave é entre Robespierre, defensor do terrorismo de Estado, e de Danton, opositor às idéias do ex-companheiro.
A diretora da peça, Cibele Forjaz, disse que qualquer semelhança com os tempos atuais, principalmente na área política, ''não é mera coincidência''. ''Fazemos um resgate do passado, buscando entender o quanto ele pode determinar o momento presente. É inevitável as pessoas fazerem associações com as questões atuais'', comentou.
Na opinião da diretora, as referências e relações feitas pelas pessoas são uma reflexão que a cada dia se faz mais necessária. Ela adianta que a peça não é só tragédia. ''Há uma mistura de linguagens. Tem comédia, riso, improviso e o tempo todo a possibilidade da reflexão'', acrescentou Cibele. A montagem também presta homenagem ao projeto do Teatro de Arena, da década de 60, que levou aos palcos a identidade nacional brasileira, com um viés crítico e uma estética popular.
O trabalho também envolveu uma releitura do Sistema Coringa criado pelo dramaturgo Augusto Boal. Dentro desse contexto, uma roleta define os papéis que os atores irão assumir em cena. Há também o ator que vive o Coringa e faz a apresentação da trama ao público. ''Essa metodologia exige um grande preparo do ator e o grupo precisa estar muito bem afinado. Na época do Boal, os papéis já estavam predefinidos pelo diretor; na nossa montagem, é a sorte que decide o papel que cada um vai assumir'', afirmou Cibele.
Segundo ela, nesse trabalho de pesquisa, partiram do princípio que o homem, ''não mais uma marionete de Deus'', passou a ser uma marionete do processo histórico e questionam isso com a interferência da roleta como forma de debater sobre o poder do acaso. O resultado de cada cena também depende da participação da platéia, que pode até definir a duração da peça, que é de ''aproximadamente duras horas e meia''.
No cenário, há um tabuleiro onde os atores, vestidos de vermelho, desempenharão seus papéis de peças brancas ou pretas, determinados pela roleta. Entre jogos de xadrez, baralho e dados, atacam bispos, enfrentam reis e blefam até dominarem o tabuleiro.
A peça faz parte do projeto Arena Conta Arena 50 anos, que celebrou, no ano passado, o cinquentenário do lendário teatro paulista. Vencedor, em São Paulo, dos prêmios Shell e APCA, em categorias especiais, o projeto incluiu uma série de palestras e leituras dramatizadas que serão compiladas em um CD-Rom.
Não por acaso, a peça estreou no dia 11 de setembro de 2004, no Teatro de Arena, em São Paulo data que emblematicamente faz referência ao terror moderno. Desde então o grupo tem se apresentado em diversas cidades do interior de São Paulo. Atualmente está em cartaz no Rio de Janeiro e em março se apresentou no Festival de Teatro de Curitiba.

Serviço:
- Ficha Técnica: Texto Original: Georg Buchner. Tradução: Christine Rohrig. Dramaturgia: Fernando Bonassi. Luz: Alessandra Domingues. Trilha Sonora: Peterson Negreiros. Cenografia e Figurinos: Simone Mina. Direção: Cibele Forjaz. Elenco: Edgar Castro, Eucir de Souza, Flávio Rocha, Paula Cohen, Luciano Chirolli, Rani Guerra e Tatiana Tomé. Realização: Cia Livre da Cooperativa Paulista de Teatro.

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