TEATRO - 'O Bispo' das artes divinas
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 11 de setembro de 2003
Jackeline Seglin<br> Reportagem Local 
''Os doentes mentais são como um beija-flor. Nunca pousam. Ficam a dois metros do chão''. (Arthur Bispo do Rosário)
Ele não acreditava que suas criações fossem obras de arte. Eram, sim, sua salvação na Terra. Para Arthur Bispo de Rosário (1909-1990), que passou 50 anos internado na Colônia Juliano Moreira (RJ), toda sua obra estava sendo preparada para o juízo final, no dia em que se encontraria com Deus. Em sua cela, ouvia vozes que ordenavam que ele reconstruísse o universo. Passou então a produzir sua obra ininterruptamente, com uma fé inabalável, justificando sua existência como uma missão divina e criando a memória da própria passagem.
O que seria um diálogo com essa obra foi o ponto de partida do espetáculo ''O Bispo'', solo do ator baiano João Miguel, que estréia hoje em Londrina, com apenas três apresentações na Casa de Cultura da UEL. De hoje a domingo, o trabalho será encenado às 20 horas.
Sob a direção do cineasta Edgar Navarro, que também assina o texto, João Miguel fez a dramaturgia e concebeu a montagem sem a intenção de criar um espetáculo biográfico. A peça tenta não reproduzir a história do Bispo, mas a lógica labiríntica de como ele criou sua obra. ''É um espetáculo das palavras de Bispo'', diz. O ponto de partida para essa viagem foi o livro ''Bispo, o Senhor do Labirinto'' (Ed. Rocco), de Luciana Hidalgo.
''Nessa época eu me fazia muitas perguntas e, ao descobrir a figura do Bispo, decidi fazer o espetáculo'', comenta o ator, que passaria os próximos cinco anos mergulhado em uma intensa pesquisa. ''Me deparar com a história de um homem que ficou 50 anos preso num hospício e que não fez nenhuma concessão sobre o próprio delírio me atraiu muito, ainda mais num momento em que a loucura no mundo é catalogada com muita facilidade. Esse conceito precisa ser revisto. Vivemos em uma sociedade farta de esquizofrênicos que criam guerras para ter poder'', comenta.
Como ator, ele diz que ao entrar em contato com a obra de Bispo percebeu que seu valor transcende o aspecto de loucura catalogado. ''Não acredito na loucura do Bispo e sim na lucidez das suas palavras''. João Miguel passou a visitar hospícios e também frequentou o Hospital Juliano Moreira de Salvador. Para ele, esta era a maneira mais direta de entender o universo do esquizofrênico.
''Os ensaios eram realizados em situações inusitadas, num corredor entre as alas masculina e feminina. Esse contato foi muito importante pra mim. Pude olhar diretamente para as pessoas e reconhecer uma não-loucura, uma humanidade em uma situação subumana'', relata. ''Nesse tempo, entrei em contato com aspectos da lucidez do Bispo''.
Era um momento de questionamentos para João Miguel. O que ele queria dizer com a arte? O que pretendia fazer com esse personagem? Isso serviu de impulso para colocar em prática o trabalho do ator, em que buscou criar uma ponte com aspectos de sua memória, com pessoas da sua infância, de sua cidade. ''O espetáculo é um jogo entre tempo, espaço e platéia. Tento trazer aspectos do Bispo onde estão contidas suas conversas com Hugo Denizart (autor do documentário ''O Prisioneiro da Passagem'', outra fonte de pesquisa do ator), diálogos com a Virgem Maria e sua relação com a estagiária Rosângela Maria, com a qual ele conviveu por dois anos e dedicou metade de sua obra''.
Arthur Bispo do Rosário era sergipano de Jarapatura. No final da década de 20, em Salvador, esteve na Marinha por cinco anos. No Rio de Janeiro, foi lutador de boxe, lavador de bondes, borracheiro e empregado doméstico. Sua primeira visão ocorreu em 1938: Jesus apareceu-lhe cercado por sete anjos azuis. Depois de vagar pelas ruas, foi internado como esquizofrênico-paranóide na Colônia Juliano Moreira, onde ficou preso numa solitária por 50 anos, até sua morte aos 81 anos.
Desde que estreou em março de 2001, o espetáculo ''O Bispo'' passou por dezenas de cidades no Brasil todo, somando inúmeras apresentações que nem mesmo João Miguel sabe precisar. ''Por ter uma estrutura de instalação, a montagem cabe em qualquer lugar. Já fizemos no sertão do Ceará, do Pernambuco, acabamos de vir de uma temporada bem-sucedida em São Paulo, que nos rendeu uma indicação para o Prêmio Shell de Teatro (melhor ator)'', conta.
O espetáculo também é levado a muitos locais inusitados no formato de performance. ''Como nos ensaios nos corredores do Juliano Moreira, já apresentei em uma jaula de avestruz dentro de um parque infantil. Também fiz uma performance de três horas em uma jaula no jardim zoológico de Salvador, ao lado da jaula de um leão'', relembra. João Miguel justifica que sua intenção é jogar com a questão do inusitado para ter sempre o elemento surpresa. ''O jogo do teatro está na vida e acho que não conseguiria trabalhar sem ter essas experiências'', diz.
Recentemente, João Miguel apresentou seu trabalho na antiga cela de Bispo do Rosário na Colônia Juliano Moreira. Ele conta que o espaço é uma grande sala com sete cubículos com um buraco dentro. ''Com o tempo, Bispo ocupou tudo ali e criou 960 peças''.
João Miguel, 33 anos, segue uma trajetória no teatro desde os nove. Aos 11, tinha seu próprio programa de televisão na Bahia, no qual entrevistou, entre outras figuras, o cineasta Glauber Rocha. Pouco tempo depois, criou o grupo de teatro Tantas e Tamanhas e, aos 18 anos, foi para o Rio de Janeiro estudar na Casa das Artes de Laranjeiras (CAL). Nessa época trabalhou com o ator Luiz Carlos Vasconcellos, o palhaço Xuxu, com o qual aprendeu o ofício mais tarde, João Miguel criaria seu próprio palhaço, Magal, que o acompanharia pelos próximos 13 anos de carreira. Aliás, foi com esse personagem que ele chegou aos hospitais psiquiátricos em suas primeiras visitas. O ator também teve uma experiência com grupo Piolim, na Paraíba, e com o diretor João Falcão na Bahia, no musical ''A Ver Estrelas''.
As apresentações em Londrina são as últimas da temporada de 2003. É que daqui João Miguel segue para a Paraíba, onde passará 2,5 meses nas filmagens do longa-metragem ''O Cinema, a Aspirina e os Urubus''. Ele será o protagonista do filme do cineasta pernambucano Marcelo Gomes, que aborda a sobrevivência e envolve a relação de um estrangeiro e um sertanejo nos anos 40.
Morando temporariamente em São Paulo, João Miguel está criando com a atriz Juliana Jardim o grupo ''nonada'', com o qual começa a trabalhar uma montagem que envolve estudos, a longo prazo, sobre aspectos de bandos (agrupamentos). A previsão é estrear no final de 2004. Ele também está criando um espetáculo infantil que resultará da experiência vivida em futura viagem à África.
SERVIÇO:
- ''O Bispo'', espetáculo-solo da ator João Miguel. De hoje a domingo, às 20 horas, na Casa de Cultura da UEL (Rua Mato Grosso, 537), em Londrina. Texto e direção: Edgar Navarro. Concepção e dramaturgia: João Miguel. Cenografia: Marepe, Zuarte Jr. e Domênico Lancelotti. Trilha sonora: Lucas Santana e andré t. Figurino: Rebeca Matta e Adriana Hitomi. Iluminação: Fábio Espírito Santo. Duração: 1h05. Realização: Barbierê Produções. Patrocínio: Promic. Apoio: Casa de Cultura da UEL, Àmen e Aero Park Hotel. Ingressos: R$ 3,00


