TEATRO - Montagem 'bem-assombrada'
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 17 de julho de 2006
Célia Musilli<br> De São José do Rio Preto 
Embora esteja formatado num caráter mais experimental em sua sexta edição, o Festival Internacional de Teatro de Rio Preto (FIT), que termina no dia 23, apresenta em sua programação vertentes encantadoras do teatro popular e da pesquisa de costumes. Entre os destaques do último fim de semana, o espetáculo ''Assombrações do Recife Velho'' levou os espectadores a uma incursão pelo imaginário nordestino, abrindo olhos e ouvidos do público a histórias de arrepiar. O trabalho exige que a encenação seja feita em casarões ''mal-assombrados'' que oferecem à companhia Os Fofos Encenam, de São Paulo, o clima necessário de mistério, envolvendo o público, restrito a cerca de 40 pessoas a cada sessão, numa empatia ''sobrenatural''.
Foi num antigo manicômio de Rio Preto, no último sábado de lua quase cheia, que os atores receberam a platéia num caminho de terra, alertando sobre o perigo de se entrar em contato com coisas que não são deste mundo. Estabelecida a cumplicidade, à luz de lamparinas, todos entraram na casa para ver voltar à cena dos ''vivos'' as ''Assombrações de Recife Velho'', devidamente recolhidas no livro homônimo de Gilberto Freyre e adaptadas para o teatro pelo diretor Newton Moreno.
Lobisomens, espíritos de sinhás-moças, almas de pretas velhas e figuras míticas do Recife antigo , como um tal Papa-Figo ou o Boca-de-Ouro, vão surgindo na interpretação perfeita de dez atores que se desdobram como narradores de lendas. A impressão é que voltamos a ouvir nossos avôs nas varandas, revelando histórias guardadas como um trunfo do imaginário humano para consolidar sua própria história através de contos e ''causos'' que também expressam a trajetória de uma família, uma comunidade ou uma raça.
O Brasil dos senhores de engenho e dos escravos, da influência ibérica, judaica, holandesa e africana renasce de modo criativo nas lendas bem interpretadas que trazem também uma aguda bagagem crítica dos valores e dos costumes. Mas os fantasmas do espetáculo não ocupam apenas o território mítico. Ocupam o plano da História através dos invasores holandeses, da saga de Frei Caneca, dos mortos pela ditadura militar nos anos 60 e 70. No fundo, o choque cultural e da opressão, desde a colonização até o Brasil contemporâneo, vai se desenhando numa montagem essencialmente criativa que tem mais de duas horas de duração, começando sempre à meia-noite, num casarão mal-assombrado de qualquer cidade do Brasil, e terminando na madrugada com um público atento às descobertas de uma face mítica ou obscura da nossa cultura.
Como experientes narradores, os atores utilizam linguagens variadas. E, se num primeiro momento assustam o público com aparições, barulhos, climas, no desdobramento do espetáculo divertem pra valer encarnando fantasmas em cenas hilárias, como a morta que não morre nunca, voltando sempre do inferno ou do paraíso para relatar aos vivos que ''certos religiosos foram ter com o demo ou que Jesus é um homem lindo, lindo.'' Com muito humor, folguedos, música e brincadeiras, como manda a boa tradição nordestina, a montagem relativamente longa não resvala na monotonia. Longe disso, apresenta-se tão rica do ponto de vista cultural e artístico que segura o público do começo ao fim através daquele mistério brincante que reflete a alma do velho Recife e suas assombrações boas de papo. O espetáculo fica em cartaz no FIT até o dia 22.
Arte em família Enquanto os ''fantasmas'' cativaram o público transformando um velho casarão em espaço cênico, a companhia Carroça de Mamulengos fez a festa nas ruas de Rio Preto no fim de semana, com o espetáculo ''Histórias de Teatro e de Circo''. Com 30 anos de existência, o grupo realiza um trabalho de criação e de resgate de expressões culturais como a Folia de Reis, o teatro de mamulengos e as artes circenses. Com duas apresentações que agradaram em cheio o público do festival, o grupo faz um teatro itinerante de excelente qualidade, cativando as platéias pela singeleza e simplicidade das encenações que incluem teatro, música e dança, dentro do conceito artístico do que no Nordeste se chama ''grupo de brincantes''.
A Carroça de Mamulengos foi criada nos anos 70 quando Carlos Gomide, nascido em Goiás, entrou em contato com a arte popular nordestina e formou com um amigo um núcleo teatral. Mais tarde, ao se casar com a atriz Shirlei França, ele daria continuidade a sua vida de artista a qual seriam incorporados os oito filhos do casal que hoje têm entre 21 e 7 anos. A bordo do ônibus apelidado de Brasiliano, e dirigido pelo motorista ''Mosquito'', o elenco que ainda conta com dois outros artistas ''agregados'', encanta as platéias em apresentações ingênuas que, num paralelo com as artes plásticas, poderíamos chamar de ''teatro naif''.
Quando eles se instalam numa praça, trazendo à cena bonecos que representam carneiros, burros e dragões que encantam crianças e adultos, formam uma imagem digna de pintura, dessas que evocam os presépios nas cidades do interior. Através desta arte mágica e coroada pelas tradições do repertório popular, eles cruzam o Brasil , a partir de Juazeiro do Norte (CE), apresentando-se em festivais e realizando oficinas de bonecos em vários locais.
Para Carlos Gomide e seus filhos, o teatro é um meio de expressão artística e de transformação social. O ''patriarca'' do grupo, que na verdade tem apenas 51 anos, realiza assim o que chama de ''vida viva'', num fazer teatral que é sua própria razão de existência. Neto de um militante das Ligas Camponesas nordestinas, Gomide compreende o teatro também como um exercício político de cidadania, interferindo nas comunidades onde vive e se apresenta. Encarnando o artista brasileiro popular por excelência, ele realiza com a família a sua ''utopia'' sempre regada à emoção.
''Quando me apresento nas ruas diz faço questão de olhar a platéia nos olhos. Não estou preocupado com técnicas, o que faço é ''camelodrurgia'', explica, fazendo um neologismo inteligente para formar o conceito de ser um ''camelô do teatro''. É assim, de cidade em cidade, que a família mantém a tradição do teatro mambembe, acreditando que ôa função do artista é não deixar morrer a poesia'', o que fica evidente a cada espetáculo.
Com boas apresentações nos teatros e nas ruas, esta edição do FIT parece consolidar a sua proposta de reunir várias linguagens, como um mostruário híbrido do teatro nacional e internacional.


